Presidente de Serralves diz que ministério não pode “pôr em causa relação de confiança”

25.06.2010 - 13:56 Por Sérgio C. Andrade
Foi “sem surpresa” que Luís Braga da Cruz, presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, no Porto, leu hoje, no PÚBLICO, o anúncio dos cortes nas verbas da Cultura. Mas teme que a política de restrições anunciada pela ministra Gabriela Canavilhas venha a “pôr em causa uma relação de confiança do Estado com a Fundação de Serralves consolidada ao longo de 20 anos”.
Há cerca de três semanas, Serralves e outras instituições privadas do país foram chamadas para uma reunião com a ministra da Cultura, em Lisboa, em que Gabriela Canavilhas traçou o quadro da crise e apelou à “solidariedade” de todos para a enfrentar. Braga da Cruz diz que Serralves “não foi apanhada desprevenida” por este quadro, e que já desde há muito pôs em marcha “um plano de contingência e de contenção de custos”, que tem passado por alterações de calendário e reprogramação de exposições. Uma estratégia que tem sido seguida é a de “apostar mais na colecção” própria de Serralves para alimentar o calendário de actividades da Fundação.
É por isso que Luís Braga da Cruz – não tendo ainda nenhuma informação oficial sobre a anunciada interrupção, este ano, da contribuição do Estado para a aquisição de novas obras – vê com preocupação os cortes agora reafirmados por Gabriela Canavilhas. “Entendemos que a colecção é a parte mais importante do património da Fundação de Serralves. E não se pode interromper o programa de aquisições, assim, de um momento para outro, até porque temos compromissos já assumidos com instituições nacionais e internacionais, resultantes de negociações complexas feitas ao longo de muito tempo”, diz o presidente.
Braga da Cruz compreende que a situação de crise do país obriga a uma política restritiva, mas lembra também que há acordos assinados pelo Estado para com Serralves – no caso das aquisições, a Fundação tem desde há vários anos um acordo de parceria com o Estado e com a Câmara do Porto pelo qual o Ministério da Cultura assegura 50 por cento da verba estabelecida para compras (que, no ano passado, ascendeu a 1,2 milhões de euros, no total). É neste contexto que Braga da Cruz, que reafirma “a solidariedade de Serralves” no esforço para a redução do défice, espera que o Governo não venha pôr em causa a relação de confiança estabelecida com a fundação recorrendo a uma análise restritiva de “custo-benefício” nas contas. “Tem que haver alguma proporcionalidade, e a Cultura não pode ser descontinuada”, defende Braga da Cruz, manifestando, no entanto, a sua convicção de que o Governo vai manter-se fiel aos compromissos que estabeleceu com a sociedade civil.


