Polémica sobre peça satírica “mostra que não avançámos muito” desde o “Manifesto Anti-Dantas”

24.07.2009 - 19:37 Por Bárbara Reis
O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, disse hoje que a polémica à volta do espectáculo satírico no qual o encenador Ricardo Pais foi criticado mostra que “não avançámos muito no domínio cultural” nos últimos 100 anos.
O espectáculo “Recital e Tal”, produzido pelas Produções Fictícias, com selecção de textos de Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos, e interpretação de Rita Blanco, Diogo Dória e Miguel Guilherme, adapta o “Manifesto Anti-Dantas”, de Almada Negreiros, para um texto anti-Ricardo Pais, incluindo a célebre frase "Morra o Dantas, morra! Pim".
“Recital e Tal” foi apresentado há uma semana no Festival ao Largo, que encheu o largo do Teatro de São Carlos, em Lisboa, no último fim-de-semana.
Mal estalou a polémica, Ricardo Pais disse que considerava o caso "uma insignificância", mas dois teatros nacionais acabaram por fazer um pedido de desculpa formal ao encenador: primeiro o São Carlos (que recebeu o espectáculo), e hoje o Teatro Nacional Dona Maria II (que o programou). Num comunicado publicado hoje na imprensa, Diogo Infante, director artístico do Dona Maria, e Maria João Brilhante, presidente do conselho de administração, dizem que comunicaram o seu “repúdio pessoal e institucional” em relação ao trabalho, mas que só se aperceberam do conteúdo tarde de mais. “Se tivéssemos sabido antecipadamente desta intenção teríamos optado por programar outro espectáculo”, escrevem.
O novo Festival ao Largo, criado este ano, teve sempre entrada livre e mais de 30 mil espectadores.
O que diz este caso do país que somos? “Que não avançámos muito em muitas coisas no domínio cultural desde o ‘Manifesto Anti-Dantas’, ou se calhar desde o século XIX”, disse hoje o ministro da Cultura numa entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença no programa “Diga Lá Excelência”, que passa hoje às 23h30 na RTP2. Há “uma grande dissociação entre as aparências académicas e o público criativo e os artistas. O desentendimento entre a geração de 1870 e a Academia ou entre os futuristas e modernistas e a Academia nos anos 1920 é muito expresso. Hoje existe ainda essa dissociação. A Academia de Ciências de Lisboa está muito divorciada e afastada da intensa e extraordinária vida criativa que existe em Portugal.”

