São um caso aparte na pop nacional, os Mesa, no homónimo de estreia (2003) faziam coisa rara por cá: pop que bebia na electrónica e desenhava refrões orelhudos. Ao segundo disco, "Vitamina", de 2005, apostavam num som mais acessível, pop com ainda menos vergonha de ser pop. À terceira, com "Para Todo o Mal", temos uma súmula dos dois discos anteriores e três, quatro faixas que nunca imaginaríamos – e que por acaso são as melhores.
Depois de um instrumental a abrir, vem a primeira canção inesperada, "Estrela cadente": um riff à Kinks (cortesia do guitarrista Jorge Coelho) cai bem sobre a voz de Mónica Ferraz, e a coisa acaba em puro rock de guitarrada. “Tribunal da relação”, o tema seguinte, bebe na electro-pop com a sageza de quem sabe escolher cada som e criar um groove imediato. Esse electro-sujo volta a surgir em "Munição", muito anos 80. Antes tinha havido o funk branco e confortável de "Quando as palavras", que caminha na corda bamba sem nunca cair para o lado de lá do mau gosto (e Mónica Ferraz sai-se muito, muito bem). Há um tema verdadeiramente dispensável, "Boca do mundo (chama)", balada ao piano que caminha na corda bamba e fica mais do lado de lá, mas antes tinha aparecido a segunda verdadeira surpresa: um quase-blues atmosférico de cheio de ecos, com sons digitais em fundo, que anda por zonas próximas da obra final do mago John Fahey. (O que raio lhes deu para meter isto aqui?) Mais uma surpresa em "Fiordes": órgãos que soam à musiquinha dos computadores Spectrum dos anos 80, xilofones, saxofones a pairar, um óptimo som de tarola – uma versão pop de uns Soft Machine sedosos. Voltam as guitarras em "E não vai ser bom", mas o instrumental é melhor que a melodia de voz (que soa demasiado a Clã), volta a experimentação em “Paladar”: de novo os metais, com ligeiro trejeito decadente, de novo órgãos vintage, de novo cuidado imenso nos jogos de percussão, de novo canção a pairar. E para terminar uma espécie de música circense, órgãos de roda. Não é um espanto, mas arrisca bem mais que quase tudo o que se faz na pop portuguesa e sai-se tão melhor quanto mais foge das regras canónicas da pop.



