Regresso de Saramago e Lobo Antunes e outras novidades em Outubro

Para ler enquanto as folhas caem

27.08.2009 - 10:24 Por Luís Miguel Queirós

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A Dom Quixote vai publicar Indignação, de Phillip Roth A Dom Quixote vai publicar Indignação, de Phillip Roth (DR)
José Saramago e António Lobo Antunes, os dois cabeças-de-lista da ficção portuguesa, para usar uma metáfora política de gosto duvidoso, mas não inteiramente impertinente, regressam no Outono com novos romances, respectivamente editados pela Caminho e pela Dom Quixote. Zeferino Coelho, da Caminho, ainda não pode adiantar o título da obra de Saramago, mas promete divulgá-lo em breve. Lobo Antunes cumpriu o desejo, expresso numa das suas crónicas, de usar como título de livro uma frase que ouviu cantar a Vitorino e Janita Salomé: Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Entre as muitas novidades que se anunciam para a rentrée literária de Outono, estes são, no domínio da ficção nacional, os dois pesos-pesados. E há que assinalar que tanto Saramago, apesar da sua respeitável idade, como Lobo Antunes, apesar das recorrentes garantias de que fechou a banca e não voltará a escrever, atravessam um período particularmente criativo, dado que já 2008 nos tinha trazido novos romances de ambos: A Viagem do Elefante e O Arquipélago da Insónia.

Prazer inesperado é o que a Assírio & Alvim reserva aos fãs de Dinis Machado. Pese embora o sucesso de O Que Diz Molero, o autor nunca deu grande importância ao que fazia. A ponto de ter morrido, a 3 de Outubro do ano passado, deixando inédita uma novela policial escrita no final dos anos 60, pela mesma época em que, recorrendo ao pseudónimo Dennis McShade, editou, na saudosa colecção popular Rififi, da Íbis, os três livros protagonizados pelo singular Peter Maynard, um assassino que bebia leite e gostava de travar diálogos filosóficos com os seus botões.

Entretanto reeditados pela Assírio, os livros de Peter Maynard (cujo nome evoca obviamente o Pierre Menard de Borges, um sujeito que queria escrever o Quijote sem plagiar Cervantes) constituem, sem sombra de dúvida, o melhor da ficção policial portuguesa da época. Blackpot, título da novela que a Assírio irá lançar em Outubro, e que, embora assinada por Dennis McShade, já não tem como herói Peter Maynard, encerra o ciclo policial do autor.

Não se sabe porque é que Dinis Machado não a publicou na época em que a escreveu, juntamente com as outras três. Talvez, muito simplesmente, porque não era preciso, uma vez que só se comprometera a escrever três livros, como contrapartida pelo adiantamento de vinte contos que recebera da editora. Ainda na ficção portuguesa, haverá mais para ler enquanto as folhas (as das árvores) caem: um novo livro de Gonçalo M. Tavares (a Caminho também ainda não desvendou o título), mais um policial de Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca (Porto Editora), ou Ilusão ou O Que Quiserem, de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote).

2009 traz-nos 2666

Como editor da Quetzal, Francisco José Viegas irá lançar uma das mais aguardadas traduções da rentrée: 2666, o romance póstumo do chileno Roberto Bolaño (1953-2003), que, a julgar pela crítica internacional, não desmerece de Os Detectives Selvagens, a obra que, de um dia para o outro, transformou o autor, filho de um motorista de pesados, numa celebridade mundial.

Na Dom Quixote sairá mais um Phillip Roth, Indignação, cuja acção decorre nos anos 50 e tem como protagonista um jovem e dotado judeu, Marcus Messner, que procura escapar a um pai superprotector. Ao contrário de Roth, cuja obra vem sendo sistematicamente editada em Portugal, o finlandês Arto Paasilinna, autor de grande sucesso no seu país, e também no estrangeiro, sobretudo em França, nunca até hoje tinha sido traduzido entre nós. A Relógio d’Água vai agora lançar o mais célebre dos seus romances, A Lebre de Vatanen, originalmente publicado em 1975. Se os leitores portugueses gostarem, pode ser que venhamos a poder ler em breve mais alguns dos trinta e muitos romances que Paasilinna escreveu.

Já o austríaco Robert Musil não era tão lesto como o finlandês a terminar romances. Nunca conseguiu dar por concluída a sua obra-prima, O Homem Sem Qualidades, embora tenho deixado escritos vários finais alternativos. João Barrento atirou-se à dificílima tarefa de traduzir o romance, de que apenas existia uma duvidosa versão parcial em português. A Dom Quixote tem já no prelo o terceiro e último volume do livro, que deve ter dado mais trabalho ao tradutor do que os outros dois juntos.

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