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Festival de Veneza

Palestina para totós

02.09.2010 - 19:08

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Schnabel e as suas actrizes esta quinta-feira em Veneza Schnabel e as suas actrizes esta quinta-feira em Veneza (Alessandro Bianchi/Reuters)
Parece que a “declaração de intenções” do director Marco Müller para Veneza 2010 – cinema que alimente ao mesmo tempo a razão e o coração – se aplicava apenas à noite de abertura, porque ao segundo dia, o festival entrou em modo business as usual, com um “filme de festival” a seguir ao outro.

Exemplo (teórico) disso é a nomeação de "The Ditch" [O Fosso], do documentarista chinês Wang Bing, como o filme-surpresa da competição.

Co-produzido pela Films de l'Étranger de Francisco Villa-Lobos (produtor de Pedro Costa há uns anitos), é a primeira ficção de um realizador que tem pensado os desafios e as transições da China moderna como poucos outros, mas cujos documentários épicos e fascinantes ("Tie Xi Qu – West of the Tracks", com nove horas de duração, exibido em Portugal pela Culturgest, e "Fengming, a Chinese Memoir", com três, apresentado no DocLisboa 2008) praticamente não existem fora do circuito dos festivais.

As expectativas, no entanto, são as melhores – cá estamos para ver.

E filme de festival por filme de festival, antes Wang Bing que Julian Schnabel ("O Escafandro e a Borboleta"), cujo chatíssimo "Miral" (competição) ergue bem alto as suas credenciais de filme bem-intencionado de boa consciência liberal sobre o conflito israelo-palestiniano mas é absolutamente incapaz de conseguir transformar essa sinceridade num filme que se apresente.

Saga sobre a tragédia palestiniana, à volta da criação em 1948 do orfanato de Dar El Tifl (o filme termina em 1994, com a morte da sua fundadora, Hind Husseini). Panfleto contra a violência da ocupação israelita (filmando, por exemplo, soldados israelitas a deitarem abaixo uma casa em Ramallah, ou uma palestiniana a apanhar seis meses de prisão por dar uma cabeçada na israelita que lhe chamou prostituta). Conto sobre a entrada na idade adulta de uma adolescente palestiniana apanhada no ciclo infernal do conflito (a Miral do título, interpretada por Freida Pinto, de "Quem Quer Ser Bilionário?"). Apelo à paz universal e à compreensão entre os povos.

Isto é o que "Miral" queria ser. O que "Miral" é, contudo, é um melodrama convencionalíssimo dobrado de “introdução ao conflito israelo-palestiniano para totós” alinhando lugares-comuns atrás de lugares-comuns, filmado numa colagem de estilos sem rei nem roque a ver qual deles pega (não pega nenhum), com actores à deriva em personagens arquetípicas (pobre Hiam Abbass, cuja dignidade não resiste a uma maquilhagem de idosa muito pouco convincente).

E não há boas intenções que resistam à sensação de que "Miral" é um exercício de turismo cinematográfico liberal que marca o ponto e não nos diz nada que já não tenha sido dito antes e melhor (Elia Suleiman à cabine de som, por favor).

Já agora: preferimos também a "Miral" o desigual "Norwegian Wood" (competição), história de primeiros amores na passagem da adolescência para a idade adulta que o franco-vietnamita Tran Anh Hung (Leão de Ouro em 1995 por "Cyclo") foi ao Japão adaptar do romance homónimo de Haruki Murakami. E história de primeiros amores mórbida e melancólica ambientada no final dos anos 1960, filmada meticulosa e arrebatadamente, com uma câmara fluida em constante movimento, recriando na perfeição a amplificação sensorial dos primeiros encontros com o amor e da idade em que tudo se começa a definir.

Mas não são raros os momentos em que Tran perde de vista a concisão que teria redobrado o impacto da sua narrativa, comprazendo-se na fetichização nostálgica de uma época (os “fabulosos anos 60”) impecavelmente reconstituída. É um filme de esteta, que se admira mas não nos emociona – o exacto oposto do que Müller dizia.

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