Owen Pallett
Lisboa, Teatro Maria Matos
Quarta, 22h
Lotação esgotada
3 estrelas (em cinco)
No espaço de poucos meses o Teatro Maria Matos recebeu os dois orquestradores de formação clássica que têm feito as delícias da pop nos últimos anos. Em Novembro foi o americano Nico Muhly. Ontem e hoje (com extensão, amanhã, para Aveiro) foi a vez do canadiano Owen Pallett, regressar à cidade onde iniciou o álbum “Heartland”.
Com três álbuns lançados (os dois primeiros assinados como Final Fantasy), foi naturalmente sobre o último que assentou o concerto de Lisboa. Um espectáculo pragmático e eficaz. O mais sóbrio que já lhe vimos. Quase não falou, para além dos normais agradecimentos, nem existiram menções à cidade que diz ser a sua favorita.
Perdeu-se, eventualmente, algum envolvimento emocional entre palco e plateia, que a lotação esgotada, há muito, das duas datas talvez antecipasse. Mas ganhou-se uma solenidade salutar, que foi mantida do princípio ao fim, apenas interrompida nos dois “encores”, quando o público quis vincar que tinha gostado do que acabara de ouvir.
Desta vez o canadiano não veio sozinho, com o seu violino, teclado e pedal de efeitos. A acompanhá-lo esteve Thomas Gill, em guitarra e percussões. Mas não se pode dizer que esse facto transporte grandes diferenças em relação ao passado recente. Como o próprio nos confessava, em Janeiro, com humor: “é bom estar acompanhado por alguém em palco. É mais confortável. Pelo menos quando dou barraca, partilho o embaraço.”
Desta feita não houve embaraços para partilhar. Apenas dois músicos compenetrados na sua função, facultando-nos uma pop circular e encantatória. No centro da acção, as variações do violino, as reproduções do “sampler” e a voz delicada de Owen Pallett. Um quadro construído à medida de uma música, na aparência, muito simples.
Existia curiosidade em perceber como é que o músico iria transpor para palco temas do último álbum como “Midnight directives“, “Keep the dog quiet“, “Lewis takes action” ou “Lewis takes off his shirt”, talvez os mais complexos, em termos de ambientes orquestrais, que já compôs. E saiu-se bem, com naturalidade, até porque são também as suas canções mais bem estruturadas.
Às vezes parece fazer acontecer as canções a partir do nada. Pode ser o som felino de um acorde de violino ou um desarmante som vocal do género “Canadá-o-do-ri-dá“, e um mundo de coisas desmultiplicam-se à nossa frente.
Às vezes as canções sugerem quadros de intimidade, outras conduzem-nos para panoramas mais expressivos. Em quase todas o pedal de efeitos é utilizado, há subtis intervenções da percussão e a voz, quase sussurrada, é utilizada com segurança, fazendo com que as cantilenas fluam umas atrás das outras, quase sem interrupções.
Quando trabalha com outros (Arcade Fire, Grizzly Bear, Beirut, The Last Shadow Puppets ou Pet Shop Boys), Owen Pallett parece ter-se especializado na criação de um tipo de som orquestral grandioso. Para si, guarda qualquer coisa de mais vulnerável. Mais próximo de nós também.


