Óscares: Martin Scorsese ou Clint Eastwood, um deles vai ganhar

27.02.2005 - 08:42 Por Rita Siza, PÚBLICO, Washington
Clint Eastwood e a sua "Million Dollar Baby" arriscam-se a estragar a festa de Martin Scorsese anunciada para a cerimónia dos 77º Óscares da Academia de Cinema, Artes e Ciência, logo à noite no Kodak Theater de Los Angeles (TVI, 1h00 da madrugada em Portugal).
Com onze nomeações, a obra de Scorsese, "O Aviador", perfila-se como o grande favorito da noite. Mas por mais estatuetas que o épico sobre as idiossincracias e desventuras do magnata Howard Hughes consiga arrecadar, há sempre a hipótese de acabar a noite como um perdedor, se Scorsese for preterido por Eastwood na categoria de melhor realizador, e se "Million Dollar Baby" for premiado como o melhor filme do ano.
Os dados estão lançados, e o resultado é tão incerto quanto são aleatórias as combinações dos pontos de cada jogada antes dos dados de "poker" caírem na mesa. A única certeza é que todos os restantes candidatos desta noite na categoria de melhor filme são concorrentes de "segunda liga". O inesperado "Sideways" tem sido distinguido com vários prémios, mas hoje à noite deve ficar de fora dos principais prémios; o fantasioso "Finding Neverland" continua a passar despercebido e a entrada de "Ray" nesta corrida parece ter acontecido apenas para justificar a atribuição do Óscar de melhor actor a Jamie Foxx. Definitivamente, o interesse da noite resume-se ao duelo Scorsese/Eastwood, o que atendendo ao património cinematográfico de cada um, é razão mais do que suficiente para justificar a noitada televisiva.
No mundo dos apostadores, "O Aviador" goza de um certo favoritismo, mas apenas porque as probabilidades de vitória são proporcionais ao número de nomeações - nas principais casas de apostas, as probabilidades do filme de Scorsese são de 1 para 2. Para os mais "supersticiosos", a vitória de Eastwood está garantida: nos últimos 56 anos, apenas por seis vezes o realizador que ganhou o Director's Guild não repetiu o feito com o Óscar. Mas no competitivo mundo de Hollywood, os factores emocionais tendem a sobrepor-se à fria análise matemática ou ao poder da tradição. E assim, apesar dos críticos e analistas terem sobrevalorizado a honestidade e profundidade dramática de "Million Dollar Baby" face à competência técnica e excelência visual de "O Aviador", Martin Scorsese pode ter mais hipóteses de ganhar simplesmente porque nunca ganhou.
Esta é a quinta nomeação de Scorsese para a categoria de melhor realizador. De todas as outras vezes - "Touro Enraivecido", "A Última Tentação de Cristo", "Tudo Bons Rapazes" e finalmente "Gangs de Nova Iorque", que tinha dez nomeações -, Scorsese voltou para casa de mãos a abanar. A discussão do momento argumenta que se a Academia resistiu a atribuir o prémio ao realizador por trabalhos classificados já como obras-primas do cinema, caso de "Touro Enraivecido", não deveria usar o Óscar como "prémio de consolação" (Alfred Hitchcock também foi nomeado cinco vezes para melhor realizador e nunca venceu). Mas Hollywood já não é o que era, e há anos que a Academia tem vindo a "redimir-se" de algumas das suas teimosias: Woody Allen já participou na cerimónia e Steven Spielberg já teve o seu momento de aclamação... duas vezes.
Michael Moore não está
Sem nenhum vencedor antecipado, à excepção de Jamie Foxx, a noite pode reservar surpresas na distribuição dos Óscares de melhor actriz, que pode render a Hilary Swank no papel de uma pugilista a sua segunda estatueta, e nos papéis secundários - a academia poderá querer fazer "justiça" às películas que ficaram para trás na categoria de melhor filme, recompensando Thomas Haden Church e Virginia Madsen por "Sideways" (que não deverá ver fugir o Óscar de melhor argumento adaptado), ou Sophie Okonedo por "Hotel Ruanda".

