Nos primeiros meses do ano de 1989, Rui Valentim de Carvalho – creio que por sugestão de Carlos de Carvalho - convidou-me para ser o realizador de um filme que “contasse” a vida de Amália Rodrigues, produzido pela firma Valentim de Carvalho, a casa editora a quem a artista confiara o encargo de editar toda a sua obra. Por José Fonseca e Costa (cineasta)
Impus, como condição para aceitar, que procurassem obter a prévia aprovação da cantora para que me fosse entregue uma tarefa por mim considerada como sendo muito honrosa e, ao mesmo tempo, de grande responsabilidade, não só pela projecção mundial do nome de Amália como também pela grandeza da operação de levar a efeito tal projecto, que começava no rigor da recolha de todo o material de natureza audiovisual onde ela tivesse participado e terminava na obrigação de obter, a partir do momento em que eu ficasse com o encargo, as mais perfeitas gravações e registos audiovisuais que, desde então, fossem feitos de todos os seus espectáculos e intervenções públicas.
Amália aceitou o meu nome e, depois da nossa primeira conversa, mantida na presença de Rui Valentim de Carvalho, ficou entendido que passaria a competir-me não só a direcção de todas as operações tendentes à realização do projecto, como também a coordenação e a gravação de todos os passos da artista que se entendesse serem relevantes para a composição do filme, em condições técnicas que considerasse como sendo as mais convenientes para a obtenção de suportes da mais alta qualidade, por forma a ser possível chegarmos a um produto final à altura da grandeza universal a que chegara o nome de Amália Rodrigues.
Tal significaria , em termos práticos, que daí em diante nenhum espectáculo de Amália teria lugar sem a minha direcção artística.
Começámos a trabalhar com entusiasmo dadas as minhas relações com a própria Amália Rodrigues, com Rui Valentim de Carvalho e seu sobrinho Carlos de Carvalho ( que assumiu as funções de coordenador de produção do projecto ) e tendo ainda em conta os laços de amizade que me ligavam, de longa data, a Alain Oulman, o compositor do maior número de fados interpretados por Amália, e a David Mourão-Ferreira , autor do maior número de poemas por ela cantados.
Organizei um plano de trabalhos que previa, para lá da recolha de todos os materiais onde houvesse a presença da artista nos diferentes arquivos de imagens em movimento, uma série de entrevistas, das quais a mais importante era a da própria Amália, que preparei minuciosamente com ela, tendo obtido a sua anuência para que se realizasse em sua casa sendo seus interlocutores eu próprio, David Mourão-Ferreira e Alain Oulman, tendo ainda ficado acordada uma ida à sua casa do Brejão cuja finalidade era a de estabelecer a sua relação com o lugar por ela própria definido como sendo o de sua eleição, sito na costa vicentina, numa casa construída à sua medida, numa falésia rochosa em frente ao oceano atlântico. Essa entrevista foi realizada e faz parte do material cujas matrizes estão à guarda da firma Valentim de Carvalho.
Depois de muitas horas de troca de impressões com Amália, que me permitiram avaliar da importância de cada um dos passos da sua longa, rica e movimentada carreira, ocorreu-me a ideia de filmar qualquer coisa que desde a primeira hora me intrigara e acerca da qual nunca havia sido feito qualquer registo.
Disse-lhe que não haveria nenhum dos espectadores do futuro filme que não desejasse saber como é que a Amália aprendia a cantar uma música e uma letra que lhe fossem trazidas pelo compositor e que ela teria que aprender para poder cantá-las...
A Amália começou por recusar liminarmente a ideia, dizendo que jamais se prestaria a revelar qualquer coisa que relevava do seu foro intimo.
Resolvi então pedir o auxílio do Alain Oulman, certo de que ele compreenderia imediatamente o interesse da minha proposta e me ajudaria a convencê-la a aceitar o que me parecia ser uma boa ideia.



