Olha, tenho um cancro. É isto. Não sei o que é ter um cancro. Agora, estou a aprender

30.07.2010 - 08:42 Por Anabela Mota Ribeiro
António Feio tem 54 anos. Quatro filhos. Uma irmã a quem diagnosticaram um cancro no pâncreas e que está safa [Nota da redacção: a irmã do actor acabou por falecer, em Setembro do ano passado]. Tem um cancro no pâncreas e está a fazer tudo para se safar. É actor e encenador. Às vezes, interpreta o bacano. E é o bacano.
Há cerca de dois meses - ele não sabe bem, porque ele e datas, datas e ele - foi diagnosticado a António Feio um cancro no pâncreas. Recentemente, na entrega dos Globos de Ouro da SIC, o actor e encenador agradeceu ao país a atenção. E ao pâncreas, pelo proporcionado. O assunto não é para brincadeiras. Mas que há-de ele fazer senão reinar com a situação? "Reinar" é uma expressão sua. "Estás a mangar comigo", também podia ser. Mas não a usou.
Há momentos em que começa a falar como o Toni, o personagem que interpreta na série Conversa da Treta, ao lado de José Pedro Gomes.
Fala como falam pessoas de todos os dias, que encontramos no café, no supermercado, na rua.
A Treta é uma leitura do mundo a partir de um quadro C e D - como arrumam as classes sociais nas televisões. Nesse quadro, como noutros, usa-se o "'bora" como se se dissesse "embora lá".
Mesmo nas classes A e B, diz-se "embora lá"? Ai temos um problema?, 'bora lá resolvê-lo.
António Feio é assim. 'Bora lá ligar o descomplicómetro e chegar às pessoas. 'Bora lá fazer o que há a fazer, deixem-se de tretas. 'Bora lá fazer de uma ida ao Monumental uma grande festa, com direito a gelado.
Se não fizer, como justificar o estar? E agora, António? Agora, toca a fazer o que é possível ser feito.
É um fazedor. Um encenador que se ocupa da carpintaria de uma peça, que dirige actores, que aponta o foco a quem tem ao lado (como em O Que Diz Molero). Trabalhou em dobragens de desenhos animados. Trabalhou na formação de jovens actores (Carla Chambel, Marco Horácio, Nuno Lopes - que lhe ofereceu o seu Globo de Ouro - foram alguns). É um trabalhador.
Ele acredita que ainda tem muito para fazer.
Enquanto isso, the show must go on e a Verdadeira Treta continua em digressão pelo país.
Pelo meio, está a fazer químio e rádio. (Não é preciso completar: todos sabem o que significa.)
Como é que está a lidar com o interesse (algo mórbido) - nosso, inclusive - pela sua doença?
Tem sido um pouco ao sabor do vento. À partida é um problema que é meu, não é? Tento preservar o lado mais íntimo.
Vamos começar do princípio. Como é que soube? O que é que o fez fazer exames?
Eu andava pelo Hospital da Luz porque a minha irmã teve um problema idêntico ao meu. Um cancro no pâncreas. A origem era diferente; mais simples de resolver do que o meu. A minha irmã, com um problema desses, assustou-me imenso!
Pelo cuidado com a sua irmã ou pelo receio de que pudesse padecer do mesmo mal?
A hipótese de lhe acontecer alguma coisa apavorou-me. Foi há três, quatro meses. Eu andava com dores de estômago desde o Natal. Comia e ficava inchado. No período de visitas ao Hospital da Luz, saí dez minutos, fui fazer uma endoscopia. Havia uma inflamação, uma gastrite, nada de especial. Entretanto, o processo da minha irmã foi evoluindo e eu continuei com queixas.
Decidi voltar ao hospital. "Eu não estou bem, vejam o que tenho." Fizeram-se exames mais aprofundados, ecografias, umas coisas. E aí, foi, surgiu, pronto, foi-me diagnosticado o cancro no pâncreas.
Qual era o cenário?
Não era muito favorável. O que me sugeriram foi fazer rádio e quimioterapia. "Vamos ver estas hipóteses." Continuei a fazer espectáculos. Fui a Madrid falar com um cirurgião. E a Paris a um hospital de reconhecidos méritos. E mandei o meu processo para os Estados Unidos. As opiniões não variavam muito. O diagnóstico era que eu teria de fazer rádio e químio. Para haver uma regressão do tumor e poder ser operado - é o objectivo final. Com o oncologista que me acompanha, decidi fazer só químio.
Contudo, para a semana, começa a fazer as duas coisas, rádio e químio.
Houve uma evolução positiva, mas não o suficiente para ser operado. Por isso, solução número dois: rádio e químio.
Em que dia soube?

