Obituário: quando João Bénard da Costa chegou ao cinema

21.05.2009 - 11:33 Por Alexandra Lucas Coelho
Excerto do obituário que sairá amanhã no caderno P2 do PÚBLICO
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João Bénard da Costa foi sempre um “cinefils”, um filho do cinema. Os pais iam ver filmes todos os sábados, uma prima anotava-os, toda a gente lhe contava enredos, e ele próprio começou cedo a ir sozinho.
Mas a “cinefilia aguda” só se desenvolve a partir de 1969. “O Cinema, até entrar para a Gulbenkian, não tem um lugar muito importante na minha vida. É uma coisa de que gosto muito, como de literatura, pintura ou música, sobre a qual escrevo ocasionalmente, mas não é exclusiva — até é relativamente marginal nos anos 60, uma música ao longe.” (revista “Pública”, 2001).
O que acontece em 1969 é que Bénard vai organizar a secção de cinema no serviço de Belas Artes da Gulbenkian, com ciclos que hão-de marcar milhares de espectadores.
Que os havia, e muitos, nesse Portugal de interditos, provou-se logo na primeira sessão, em 1973, com “Roma, Cidade Aberta” apresentada pelo próprio Rosselini. Em cima da hora a censura ainda quis actuar, mas conteve-se por o realizador já estar em Lisboa. Tendo dormido e até ressonado na sessão — porque detestava rever os próprios filmes —, Rosselini acordou com uma ovação de 10 minutos, entre gritos de “Abaixo o fascismo!” e “Liberdade! Liberdade!” Henri Langlois, o mítico director da Cinemateca Francesa, estava lá, e viu nessa explosão a emergência do 25 de Abril.
Foi também nesse ano que João Bénard começou a ensinar Cinema no Conservatório. Só deixou de dar aulas em 1980, quando — a convite de Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura — entrou para a Cinemateca Portuguesa como subdirector. Em 1991, sucedeu a Luís de Pina na direcção, até hoje.
Ao todo são quase 30 anos de trabalho que, além de criarem o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, fizeram da casa lisboeta uma parceira de Paris, Bruxelas, Madrid, Lausanne ou Helsínquia em inúmeros ciclos, capaz de trazer cineastas como Claude Chabrol ou Jean-Marie Straub e de cruzar na programação actores, fotógrafos, artistas plásticos ou escritores.
O que Bénard escreveu em livros, catálogos e incontáveis “folhas-de-sala” — sobre Buñuel, Lang, Sternberg, Hawks, Ray, Hitchcock, Mizoguchi, Dreyer, Renoir, Oliveira, Buñuel, Capra, Godard, Bergman, Lynch, Cronenberg ou César Monteiro — representou para muita gente toda uma nova possibilidade de ver cinema, e dentro dele a infinita possibilidade humana.
Depois, nos anos 90 de “O Independente”, esse universo fundiu-se com a própria vida de Bénard em crónicas que alternavam “Os Meus Filmes da Vida” com “Os Filmes da Minha Vida”.
Quem, entre os que o leram, não sabe como se apaixonou por Esther Williams ou Alida Valli (e Gene Tierney?, e Anna Karina?, e a Isabella que a Ingrid Bergman teve com Rosselini?)
Quem consegue pensar em “Johnny Guitar” sem pensar em João Johnny Bénard (que sobre este filme mil vezes disse “Porque era ele, porque sou eu”)?
Como Godard, Bénard acreditava que não há o mais belo dos filmes, porque 100, 300 ou 500 são, naquele momento, o mais belo dos filmes.
E amou carnalmente os actores, aqueles que fazem acontecer o inexplicável de cada vez que aparecem, e cuja existência “não se parece com a de mais ninguém”.
Foi ele próprio actor, sob o pseudónimo de Duarte de Almeida e a direcção sobretudo de Oliveira, mesmo sabendo “desde o princípio” que “não era actor”.
Em 2001 contava já 21 filmes, e não ficaria por aí.
Educar o gosto
Talvez só um crente possa criar êxtase, e foi assim que João Bénard da Costa escreveu sobre o tudo e tanto que sabia em permanente jogo omnívoro — não como um crítico, que sempre disse não ser —, mas como quem amava a arte porque amava a vida. Queria ser arrebatado, saber e deixar de saber.


