É uma edição de combate - e em contagem decrescente para 2010, o ano em que o Fantas chega aos 30 e faz, havendo dinheiro, "um festival série A.
Nos últimos anos, o Fantasporto foi o mesmo festival de sempre, mais qualquer coisa: mais o Orient Express, a frente asiática que a organização abriu em 2005, mais a cidade do cinema, a tenda insuflável que passou a ser o portal do Fantas em 2007, mais o Teatro Sá da Bandeira, a sala da luz vermelha onde em 2008 vimos os piores filmes de todos os tempos (dos tomates assassinos à picha de Hitler) e julgámos que estávamos no Carlos Alberto outra vez.
Este ano, o Fantasporto é o mesmo festival de sempre, menos qualquer coisa: menos Pré-Fantas, que desapareceu do programa para dar vez ao ciclo de filmes e conferências Cinema e Arquitectura - Sobre as Ruínas do Futuro, menos salas (há extensões do festival em todo o país, mas no Porto o Fantas não tem vida para além do Rivoli), menos filmes (as sessões das 19h00, por exemplo, são menos frequentes).
A edição que começa hoje, às 20h30, com a antestreia nacional de Che - The Argentine, primeira parte do biopic de Steven Soderbergh sobre Ernesto Che Guevara, é uma edição de combate: "Cortámos em tudo o que podíamos cortar sem pôr em causa a imagem do festival. Mas estamos no limite daquilo que não se nota", explicou o director do Fantasporto, Mário Dorminsky, ao P2.
Também é a conversa de sempre, mas com uma agravante: a 28.ª edição do festival terminou com um saldo negativo de 140 mil euros, um buraco que Dorminsky atribui a "uma rasteira do Turismo de Portugal" ("Oficiosamente disseram-nos que teríamos direito a uma determinada verba, mas oficialmente, e já a meio do festival, atribuíram-nos 50 mil euros"), e o futuro não é muito radioso. Para fazer o "festival série A" com que a organização quer festejar os 30 anos do Fantasporto em 2010, foi preciso fazer um festival série B.
Competição de pé
Caiu o Pré-Fantas, caíram convidados, mas as três secções competitivas ficaram de pé e a organização põe a mão no fogo pelos filmes seleccionados: nisso, este Fantas é igual aos outros. Aliás, tem alguns dos premiados (ou protopremiados) dos outros: o americano Darren Aronofsky (Pi e Requiem for a Dream foram fenómenos de culto no festival) concorre na Semana dos Realizadores com O Wrestler; o húngaro Kornél Mundruczó (grande prémio Secção Oficial de Cinema Fantástico em 2006, com Johanna) vem ao Porto mostrar o brilharete que fez em Cannes com Delta; o alemão Veit Helmer (prémio especial do júri da Secção Oficial de Cinema Fantástico e prémio do público em 2000, com Tuvalu) regressa com Absurdistan; o japonês Shinya Tuskamoto (prémio especial do júri da Secção Oficial de Cinema Fantástico em 1992, com Tetsuo II, e em 2003, com A Snake of June, e prémio especial do júri da secção Orient Express em 2005, com Vital), contra-ataca com Nightmare Detective 2; e outro americano, o animador Bill Plympton (prémio de carreira em 1999 e em 2006, o que praticamente faz dele um caso único na história do festival), faz-se ao cinema negro em Idiots and Angels.
A passadeira vermelha deste ano é para eles - e para Wim Wenders (também a concurso, na Semana dos Realizadores, com Palermo Shooting), Paul Schrader (Adam Resurrected passa fora de competição, na sessão de encerramento) e José Fonseca e Costa (retrospectiva não integral e masterclass), os principais convidados da 29.ª edição.
Mais abaixo, no pequeno auditório, o Fantas homenageia o cinema galego com um programa pesado que passa em revista a produção mais recente, e depois mete-se na máquina do tempo para recuperar o giallo do italiano Mario Bava (pai fundador de um certo cinema de terror europeu) e os filmes malditos do alemão Jörg Buttgereit, que vem ao Porto 20 anos depois de Nekromantik ter dividido o festival ao meio (prós e contras, antes e depois, foi desse género).


