Na escuridão de um café no Porto, Vítor Bastos diz que ele e os seus colegas LAB estão unidos pela diferença. Parece um lema, um slogan à espera de acontecer. Ninguém percebeu por que é que o Vítor, lá do outro lado daquele ecrã com um Skype tremeluzente, está às escuras. Afinal, é um café no centro da cidade, nas Galerias Paris. Mas ele até levou uma lanterna para o vermos melhor e a ligação não estava suficientemente boa para percebermos o porquê daquele chiaroscuro, daquele look Blair Witch, como brincou. Deste lado do Skype, em Lisboa, estão Sara Lamúrias, Pedro Noronha Feio e duas enviadas especiais de Londres, Lara Torres e Evgenia Tabakova.
Ficou a faltar Ricardo Andrez, que tinha um compromisso inadiável nos dias pré-ModaLisboa. Lara, Vítor e Evgenia já cá cantavam por causa disso mesmo - da iminência dos desfiles e mostras da ModaLisboa, na qual todos integram a plataforma LAB, que hoje começa. Lara, bolseira da Fundação Gulbenkian, está a estudar no mestrado de Artefacto de Moda na London College of Fashion; Evgenia está também baseada em Londres. E Vítor vive entre o Porto e Berlim, onde trabalha com a marca local Bless e na sua marca.
Juntam-se ao portuense Andrez, ao lisboeta Pedro Noronha Feio (que dá aulas no CIVEC e que com a russa Evgenia forma os White Tent) e a Sara Lamúrias, autora da marca aforestdesign, que está entre Lisboa e as aulas que lecciona na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.
São eles os LAB e juntam-se assim há meses, via Skype ou mail ou outra forma de estarem, unidos na sua diferença e mundo globalizado, a debater o seu estatuto, os seus projectos. Desta vez, o P2 imiscuiu-se na conversa.
No primeiro encontro, de sua iniciativa, para falarem sobre o que era estarem nesta plataforma, que os distingue dos restantes criadores na ModaLisboa, havia imperiais e caracóis. Foi no Verão de 2009.Desta vez, havia uma criança feliz, um atelier partilhado com outros artistas e o frio de uma noite de Março de 2010.
Cada um tem a sua marca, mas todos pertencem ao LAB, que "era uma plataforma de apresentação de novas linguagens e de observação do desenvolvimento de micromarcas", como explica Eduarda Abbondanza, directora da Associação ModaLisboa. Era. Antes havia o Sangue Novo, em que os designers emergentes tinham a primeira oportunidade e de onde saíram Susana Cabrito (passou pela Chanel, hoje designer na Givenchy) ou Priscila Alexandre (que foi trabalhar com a Louis Vuitton), as próprias Lara Torres (2003) e Sara Lamúrias (2004). Agora há o LAB e Abbondanza usa o passado para se referir a este espaço porque eles agora "são um movimento dentro de um movimento".
Isto não é uma fase
"Por iniciativa deles, criaram uma espécie de grupo de trabalho", evoca Abbondanza. Para comunicar, completam eles. Entre si, claro, para descobrirem que afinal há imensos obstáculos em comum e soluções à espera de uma troca de experiências. Como a questão da produção. Para a indústria aceitar encomendas "é preciso produzir grandes quantidades e todos temos um trabalho de nicho", explica Lara Torres. Com conversa lá vieram os contactos, coisa que antes não passava.
Mas também queriam comunicar para fora. Escreviam, no primeiro jornal LAB (Outubro de 2009, tiragem 400 exemplares, produção auto-sustentada) que o seu tipo de trabalho é "erradamente analisado pelos mesmos padrões com que são analisados todos os projectos apresentados" na ModaLisboa e na indústria em geral. Para quem acompanha a mostra mais conceituada e antiga de moda de autor em Portugal, o espaço do LAB é de facto um espaço à parte. Geralmente a imprensa internacional aprecia-os, os seus convidados são um misto da tribo da moda com a tribo da arte e das publicações alternativas, a imprensa generalista ou especializada não sabe bem como enquadrá-los nas suas páginas com "as tendências".
Por isso mesmo, sentiam que estavam contra uma parede. Agora, as paredes que os acolhem serão outras: as do Museu do Design e da Moda, na Rua Augusta, em que Sara Lamúrias - e a aforestdesign - inaugura uma instalação e onde Lara Torres apresenta um vídeo. Ambas estão no Mude até dia 31 e são os únicos elementos da Lisbon Fashion Week que perduram na cidade e estão abertos ao público.
"Procuramos sempre um espaço com menos exigências [cénicas, fora da sala oficial de desfiles] para permitir uma liberdade maior ao seu próprio desenvolvimento, porque são jovens que precisam desse espaço para ensaiar e encontrar a sua identidade", explica Eduarda Abbondanza. Mas eles podem não concordar inteiramente com isto.



