Artigo publicado na revista Magazine a 13 de Dezembro de 1994

O gosto de viver devagar

06.07.2010 - 12:43 Por Fernando Dacosta

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“As Fadas Verdes”, livro publicado em 1994 “As Fadas Verdes”, livro publicado em 1994 (DR)
Viver devagar é, para alguns, uma forma superior de viver. Uma postura de sabedoria, de apaziguamento. O futuro vai, segundo eles, devolver os valores da lentidão e da sobriedade a um mundo ferido pela pressa, pelo sucesso, pela competição, pelo efémero; a uma natureza devastada pela poluição, pelo desperdício, pelo consumismo, pelo produtivismo. Vozes emergem já, em crescendo, nesse sentido. A de Matilde Rosa Araújo, poetisa, professora, escritora (acaba de lançar o livro “As Fadas Verdes”), figura angular na vida cívica dos últimos decénios, é uma delas.

“Gosto de viver devagar. De saborear o tempo, o fluir vagaroso do tempo nas pequenas coisas, nos pequenos gestos”, diz. “Houve uma altura da minha vida em que não punha sequer data nas cartas, nos textos que escrevia, como se ele não existisse. Aliás, a época do ter, ter pressa, ter bens, ter poder, vai passar. Tudo cansa. As pessoas vão querer outras coisas, outros valores, vão recuperar o ser. Está a surgir uma espécie de fome do solidário, do espiritual, do humano, do afectivo. As pessoas não aguentam o vazio. O vazio fá-las sentir pobres. Há muita pobreza e muito exibicionismo de riqueza à nossa volta, muita barraca, muito pedinte, muito abandonado.”

Ímpar na dignidade e na discrição, Matilde Rosa Araújo, nascida em Lisboa há 73 anos, tornou-se uma referência na história do ensino e da criação literária infantil deste século.

“O Livro da Tila” e “Cantar da Tila” (crianças), “A Garrena”, “Estado sem Nome” e “Praia Nova” (adultos), “Voz Nua” (poesia) são-lhe, entre outras, obras marcantes.

Formadora de professores e alunos, despertou várias gerações para os valores da modernidade artística e literária (“Presença” , “Orfeu”), da ética, da democracia, da solidariedade, da liberdade.

Sem ilusões nem desilusões excessivas — nos outros e em si, nas ideias e nos sentimentos —, atravessou a vida acrescentando-a, acrescentando-se sempre. Hoje é um grande mulher silenciosa, de olhares, de ironias ondeantes e apaziguadas.

Tem sempre paciência para as pessoas?
Tenho. [Ri.] Elas é que podem não ter sempre paciência para mim. Às vezes chegam a ser menos amáveis...

Estão a perder a amabilidade?
Os adultos sim, não as crianças. Talvez por uma questão de defesa, de pouca disponibilidade, de impaciência. Esquecem com facilidade que problemas sempre houve, problemas de toda a ordem, de sentido de vida, de afectividade, de afirmação, de insegurança.

Hoje esses problemas são maiores?
Não sei. As pessoas estão é mais conscientes deles. Isso torna-as interiormente mais vulneráveis, mais crispadas. Sabem mais o que deviam ter e não têm. Não por ambição, mas por sentido de justiça. Hoje há mais consciência das injustiças do que havia no passado.

Apesar de elas serem, no passado, maiores?
Sim. Antes havia nas camadas populares mais conformismo.

Quando pensava no futuro, pensava que era este o futuro que ia ter?
Eu tinha uma ideia de futuro como o de uma época de entendimento, de equilíbrio, de alguma felicidade.

O que era alguma felicidade?
Era as pessoas poderem ser aquilo que são. Aquilo que podem ser, dentro dos seus sonhos, das suas generosidades.

Vê muitos sonhos, muitas generosidades à sua volta?
Vejo, tenho visto mesmo muito altruísmo. Chego a pensar: que sorte tive por ter vivido este tempo, já tão longo, que me coube. Que sorte tive por haver conhecido as pessoas que conheci. Pessoas que sentiram pela vida, e pelos outros, muito, muito amor.

Caso de...
Caso de uma Maria Lamas, de uma Irene Lisboa, de um Agostinho da Silva, de um Gomes Ferreira, de um Ferreira de Castro, de um Assis Esperança, de um Cochofel, de uma Vergínia Lopes de Mendonça, de um Manuel da Fonseca, de um Sidónio Muralha, de um Ruy Cinatti, de tantos, oh, tantos outros!

Solidão, tem?
Todos temos. Precisamos é de aprender a dar golpes de rins para lhe escapar, para a enfrentar. A solidão acompanha-nos pela vida fora, faz parte de nós, tão profundamente que não existe, não existe uma verdadeira solidão...

O contrário também é verdade!
Também. Mas eu nunca me senti muito isolada. Sempre tive o afecto das crianças e dos amigos, e quando se tem afecto o resto torna-se secundário.

As crianças sofrem muito de solidão?
Muito. Há imensas crianças abandonadas, desprezadas...

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