Ladrão de gado e assassino de xerifes, Billy The Kid está imortalizado em tons heróicos no cinema, na música ou em BD. 118 anos depois da sua morte, o governador do Novo México reabriu o processo e a 31 de Dezembro último soube-se que o estado não perdoou um dos mais duradouros mitos do Velho Oeste.
Na noite de 14 de Julho de 1881, no Novo México, um homem de 21 anos caiu no escuro de um quarto. Pat Garrett, o xerife que disparara dois tiros quando um vulto surgiu na penumbra, saiu do quarto e esperou, ansioso. E se o homem que matara não fosse aquele que perseguia? E se o homem que matara não fosse Billy The Kid, fugitivo com várias mortes no currículo, incluindo a de um xerife, William Brady? Pat Garrett ganhou coragem. Confirmou. Era ele. Começava a lenda em volta daquela personagem ambígua: para uns, criminoso cruel, para outros, herói trágico injustiçado.
Em Agosto de 2010, aquele que foi durante oito anos governador do Novo México, Bill Richardson - abandonou o cargo a 1 de Janeiro, depois de cumprir os dois mandatos permitidos pela Constituição americana -, anunciou o último acto da sua governação. Decidiria sobre o indulto de Billy The Kid, uma das maiores atracções turísticas do Novo México, 118 anos depois da sua morte.
Richardson recuperou o caso enquanto acto de justiça. Em 1878, Henry McCarty (nome de nascença), ou melhor, William H. Bonney (nome adoptado aos 18 anos), ou, simplificando, Billy The Kid, escreveu a Lew Wallace, recém-empossado governador do Novo México (e autor, em 1880, do épico Ben Hur), prometendo entregar-se e testemunhar no julgamento de outros crimes no território em troca de amnistia. O governador aceitou o acordo, o pistoleiro entregou-se. Mas, depois do testemunho, manteve-se preso. Wallace cometeu a desonra de faltar à palavra.
Até dia 31, esgrimiram-se argumentos (maioriariamente contra o indulto). Os descendentes de Pat Garrett, William Brady e Lew Wallace acusaram o governador de revisionismo histórico. Um historiador amador, Bob Ross, falando ao New York Times, concordou com eles: "Neste momento, é um gesto vazio. O propósito do perdão seria salvar-lhe a vida. É demasiado tarde. Ao perdoá-lo, o que se está a dizer? Que não matou o xerife Brady? Os factos mostram que o fez e que era um ladrão profissional de cavalos e gado."
Dia 31, foi feito o anúncio. Não houve perdão para Billy The Kid, um homem cuja vida foi passada "a saquear, a devastar e a matar os merecedores e os inocentes de igual forma", declarou o governador. "Se alguém vai reescrever um capítulo tão importante quanto este", justificou, citado pelo New York Times, "será conveniente ter a certeza dos factos, das circunstâncias e motivações dos envolvidos". Oficialmente, assunto encerrado. Tudo não passara de devaneio de um homem do poder fascinado com um mito.
Mas, quanto a Billy The Kid, é impossível ser absolutamente objectivo. O assassino implacável era também, concordam os relatos da época, um homem sociável e bon vivant, de discurso e escrita fluente, justo para com os seus, sedutor e bom dançarino. Era especialmente popular junto da população mexicana: incitava-a a rebelar-se contra as humilhações e injustiças exercidas pelos grandes proprietários.
A Guerra de Lincoln County
Henry McCarty nasceu em Nova Iorque a 23 de Novembro de 1859, filho de Catherine McCarty, uma imigrante irlandesa, e de pai incerto. Aos 14 anos, acabado de chegar a Silver City, vê a mãe morrer de tuberculose. Com 1m75, magro, de olhos azuis e com incisivos salientes, era um órfão de vida desgraçada, mas de inocência não corrompida. Os anos seguintes transformariam essa imagem.
É preso pela primeira vez aos 15 anos, por roubar queijo. É preso pela segunda vez meses depois - desta vez, roupa e armas de uma lavandaria chinesa. Escapa da cela por uma chaminé, torna-se um fugitivo, um fora-da-lei, e faz precisamente aquilo a que, dizem-nos os westerns, se dedicam os fora-da-lei. Jogo e roubo de gado, com mortes pelo meio. A primeira do seu currículo surge em 1877: um ferreiro irlandês com quem mantinha uma relação turbulenta - "Autodefesa", argumenta; "criminoso", escreve-se no relatório policial. Foge novamente.



