Crítica de música

O admirável tempo sem tempo de Wisnik

19.06.2010 - 10:29 Por Nuno Pacheco

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José Miguel Wisnik José Miguel Wisnik (DR/arquivo)
José Miguel Wisnik e convidados
Lisboa, Grande Auditório da Culturgest
Sexta-feira, 18 de Junho, 21h30
Sala a três quartos
4,5 estrelas em 5

Revelou-se, mais uma vez, acertadíssimo o convite da Culturgest a José Miguel Wisnik para, no mesmo palco onde se estreou em Portugal (em Junho de 2007), mostrar temas ainda inéditos do seu próximo disco, viajar pelos anteriores e permitir uma outra estreia, a do jovem cantor Celso Sim, que também trazia um novo disco para apresentar (um “voz e violão” excelente, parceria com Nestrovski, que muita gente comprou no final).

De resto, o concerto de Wisnik (voz e piano), que de novo trouxe consigo o seu parceiro violonista Arthur Nestrovski, criador e professor como ele, a par de músicos de craveira alta como Marcelo Jeneci (teclas), Sérgio Reze (percussão) e Márcio Arantes (baixo), foi uma lição de sabedoria, um cruzamento de sons e gostos antigos e contemporâneos, uma fina tapeçaria de excelentes composições, num tempo sem tempo admirável.

Foi, aliás, esse o nome da primeira canção que soou na noite: “Tempo sem tempo”, parceria de Wisnik com Mautner. E a palavra parceria faz parte da gramática cuidada de Wisnik, porque todo o seu trabalho se conjuga com terceiros, num enriquecimento que exige atenção refinada. A forma como ele conjuga harmonias, ritmos e palavras revela uma mestria tão tranquila quanto eficaz. Cada concerto é também uma aula, repleta de histórias e personagens inusitadas, e a cada passo a plateia deixa-se envolver por elas. Como a que misturou “O sol enganador” (tema do filme homónimo de Mikhalkov) com “Efeito samba”, que um dia Wisnik (descendente de polacos) escreveu com Vadim Nitikin (russo que veio para o Brasil ainda bebé) e apresentou ao vivo na Polónia com Nestrovski (descendente de ucranianos). Tiveram que lhe mudar a letra, até porque não ficava bem cantar ali: “adeus meu Rio de Janeiro, eu vou me embora pra Moscou”. Ficou Polónia, claro. Por outro motivo ainda mais incrível: a música da primeira canção, que eles baptizaram como “tango russo”, era afinal um tradicional polaco.

Outras histórias? Haveria mil, se o tempo o permitisse. E ele contou e cantou várias. Como a desse “Sócrates que leu Platão”, estudou medicina e foi estrela do futebol brasileiro na “Copa de 1982”. Nome? Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, também conhecido por “Magrão”. Pois Wisnik fez dele um samba exaltação e a plateia lisboeta vibrou com ele. Tal como vibrou com a canção escrita para o filme “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles sobre um lugar onde dois brasileiros se perdem. Que lugar é esse? Lisboa. E Wisnik escreveu: “encalhado no fado estou…”

Wisnik trouxe ainda para o terreiro das suas canções nomes como António Cícero (poeta contemporâneo de quem musicou o poema “Os ilhéus”, do recomendadíssimo “A Cidade e os Livros”) ou Gregório de Matos, poeta barroco do século dezassete, nascido em Salvador da Bahia (1636-1695), de quem usou sonetos num belo tema.

“No dia da morte de José Saramago”, como ele disse, com a sala em silêncio, Wisnik quis cantar Fernando Pessoa. “Tenho dó das estrelas”, que em Portugal já fora tornado canção por José Mário Branco, soou na Culturgest como um pungente fado-morna.

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Wisnik, Carmen e Sacramento

Embora não tenha estado no concerto de ontem, não vou perder o de dia 24 no Olga Cadaval, ...

Cecília

19.06.2010 17:48

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