Quando se anuncia uma "cena", o mundo pop presta atenção e investiga. Quando uma estrela como Colin Greenwood, dos Radiohead, se apresenta em concertos com t-shirts da banda que melhor a representa, uma revista como a "New Yorker" ou um jornal como o "New York Times" dedicam páginas generosas ao fenómeno, já nem é necessário investigar, basta amplificar o ruído do burburinho. Apresentemos então os No Age, duo baterista/guitarrista de Los Angeles, formado ao som do hardcore e da ética DIY dos Black Flag.
Eles representam a nova cena: miúdos de LA que tocam em qualquer local que lhes apresentam, promovem uma relação próxima entre músicos e público e estimulam parcerias com outras expressões artísticas, como o vídeo ou a fotografia, de forma a acentuar a ideia de colectivo e a revalorizar a música gravada enquanto objecto. "Nouns", o álbum de estreia de Dean Spunt e Randy Randall (sucessor da colectânea de EPs "Weirdo Rippers"), surge acompanhado de um livreto de 64 páginas que traça o imaginário da banda em fotos: as colecções de cassetes, o material de palco, o público nos concertos, as praias e as pontes galgadas em digressão, a paisagem urbana que os rodeia em Los Angeles. "Nouns", o álbum de estreia dos No Age, é uma explosão rock'n'roll em glorioso lo-fi. Nele, o desejo de catarse eléctrica conjugase com a vontade de criar curtas canções pop. Nele, sequências experimentais "sampladas" são o reverso da medalha de um inebriante shoegaze punk (inventámos a expressão neste preciso momento). Ou seja, além da cena existe uma banda, e a banda entusiasma: são rugidos Sonic Youth a uivar no cérebro e melodias pop para cantarolar (devidamente distorcidas, absolutamente viscerais). "Teen creeps" atinge o êxtase sónico dos Trail Of Dead num par de minutos. "Things I did when I was dead" tem um piano e uma guitarra a tentar convencer-nos que é uma "lullaby" gentil, tem um sample tétrico em loop e uma voz espectral simulando serenidade: uma delícia perturbadora. "Cappo" movimenta-se em "stomp" gingão e alegria "indie" (e nós a dançar com ela) até inventar um refrão sem palavras que nos levita a céus de placidez rock'n'roll: durante dois minutos e 43 segundos, não queremos viver noutro sítio. Sente-se em "Nouns" uma urgência na interpretação que atravessa as paredes precárias do lo-fi em que foi gravado, sente-se aqui uma vitalidade que contagia e uma capacidade assinalável para concentrar várias ideias (as dos Sonic Youth, as dos Trail Of Dead, as dos Liars ou dos Black Dice) no espaço de uma curta canção pop. Prazer irresistível: viva a cena, vivam os No Age.



