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Festival de Veneza

Não, minha filha, isto não é "Os Sapatos Vermelhos"

03.09.2010 - 15:44 Por Jorge Mourinha, Veneza

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Natalie Portman em "The Black Swan" Natalie Portman em "The Black Swan" (DR)
Toda a gente faz a mesma pergunta: então e “Os Sapatos Vermelhos”, o clássico de Michael Powell e Emeric Pressburger sobre o mundo do bailado?

Mas não, lamenta Darren Aronofsky na roda de imprensa veneziana para “Black Swan”, o filme de abertura da edição 2010 da Mostra. Não é por aí, ninguém pensou nisso. As referências devem ser procuradas mais noutros lados – Dostoievski (“O Duplo”), Polanski (“Repulsa”), Cronenberg.

E já agora também do anterior filme do realizador, “O Wrestler”. Porque o ballet e o wrestling são ambas actividades de uma extrema dureza física – e Vincent Cassel, que interpreta o papel de director artístico de uma companhia nova-iorquina e teve em adolescente aulas de acrobacia e bailado, diz que os bailarinos profissionais reconhecerão certamente a dureza e a dificuldade de uma arte que exige dedicação e entrega absoluta.

(Na projecção de imprensa, sempre que se ouvia um músculo, um torcicolo, uma queda, a audiência gemia.)

“Black Swan”, escusado será dizer, não é o filme do costume sobre o ballet. É um thriller psicológico sobre uma bailarina (soberba Natalie Portman) confrontada com o momento da verdade para o qual se treinou toda a vida (estrear-se como primeira bailarina no célebre “Lago dos Cisnes”). E o ballet, aqui, é uma metáfora da arte, da representação, da criatividade – e do modo como eles acordam o que de mais fundo (e não raras vezes perigoso) há em nós.

E foi (outra vez) um filme difícil de montar para Aronofsky - mesmo depois do triunfo do “Wrestler”, com o Leão de Ouro em Veneza 2008 e as múltiplas nomeações para os Óscares.

O projecto andava há cerca de dez anos a correr pelos estúdios sem que ninguém lhe pegasse, o financiamento independente caiu por terra a quinze dias da filmagem, foi a Fox que entrou no projecto à última hora na base do trabalho de pré-produção.

É, aliás, por isso que Aronofsky diz que quis ter o filme a concurso em Veneza, onde nem sempre os filmes de abertura concorrem – porque toda a atenção que se puder dar a um filme que sai fora das gavetas habituais só pode ajudar (como sabe por experiência própria). Subentendendo-se que é por causa disso que Aronofsky, Portman e Cassel se prestam a estas mesas-redondas de promoção onde acaba por não haver tempo que chegue para explorar gente com coisas interessantes para dizer sobre um bom filme. Mas a ele voltaremos quando chegar às salas nacionais.

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