Lhasa de Sela

Muito terra-a-terra e a cabeça sempre nas nuvens

04.01.2010 - 06:46 Por João Bonifácio

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Lhasa de Sela Lhasa de Sela (Nuno Ferreira Santos)
Lhasa de Sela, a mexicana andarilha, esteve em Portugal para dois concertos, a finalizar a digressão. Nunca tinha deixado jornalistas entrarem no seu mundo privado, mas abriu as portas ao Y. Retrato de uma menina-mulher.

Domingo, dia 5 de Dezembro, 15 h30. Lisboa está mais fria do que o habitual, não há carros nas ruas. Vira-se à direita na Av. Berna e uma rapariga nova, com óculos de massa e roupa côr de folhagem, acompanha a leitura de Heidegger com um balançar de pé que denuncia um estranho entusiasmo para quem escolhe passar um início de tarde nos Jardins da Gulbenkian a ler um filósofo críptico. Na pequena encosta há outra miúda, aparentemente mais nova, a fazer desenhos num caderno A5, enquanto à direita um casal com pinta de nórdico abre uma toalha branca com motivos vermelhos. O puto salta em cima da toalha e eles riem. Outro casal junta-se a eles enquanto uma rapariga, um pouco mais velha, encima a estátua do "Mar sem fim", de João Fragoso, mesmo junto ao pequeno lago. Chama-se Lhasa de Sela e tem fama de ser tímida. A máquina do repórter fotográfico de um jornal faz click e já está. Por enquanto. Três dias disto, sem parar. Pelo meio, canta.

Dez minutos depois está deitada em cima de um molho de folhas na outra (minúscula) encosta do jardim, em frente ao café. Vira-se de lado, de barriga para baixo, põe as folhas em cima, dizem que é tímida. Ainda há pouco tinha descido da estátua, trocado duas palavras com a "manager", depois as apresentações, ligeira conversa sobre a parte chata do trabalho, e a confissão: "Sinto-me mal com aqueles fotógrafos que me dizem 'põe-te assim' [coloca um ar altivo], 'e agora olha para ali com os olhos assim' [põe a cara de lado em relação ao corpo e semicerra os olhos]. Não é espontâneo." Está deitada de flanco em cima das folhas, uma última foto, já está. Por enquanto. Agora ainda faltam duas entrevistas.

"Lhasa, ne fais pas ça", diz Gina, quando a mexicana começa a apanhar as folhas do chão. Percebe-se que Lhasa não gosta de fazer as coisas como é suposto. Nada nesta rapariga pressupõe que se trate de uma estrela da "world music". "É um termo que dá jeito mas que não quer dizer nada", dirá a Carlos Vaz Marques, numa entrevista à TSF. "Não quer dizer nada", repete, de forma resoluta (esse lado de extrema convicção torna-se notório, ao fim de uns dias; David Savoie, o "tour manager", dir-nos-ia 3ª feira, em Famalicão, no último concerto da digressão: "Ela sabe quem ama e o que ama verdadeiramente, e quem e o que não ama, tanto na vida como na arte. Lê imenso, conhece música que nunca mais acaba, adora cinema".)

"Lhasa, ne fais pas ça". Era a condição "sine qua non" para poderem fazer a sessão de fotografia assim: usavam as folhas que a senhora da limpeza tinha recolhido, mas depois voltavam a colocá-las no saco. Lhasa está contente por mexer nas folhas e vem aos saltitos até nós. Gina admira um cachorro que por ali passava e conta-nos que o filho mais velho ganha a vida como uma espécie de cabeleireiro de cães. Traz o mais novo, Tommy (que anda sempre a rondar), com ela, na digressão. Quando tentamos falar dela, fecha-se em copas. É a matriarca, Gina. Está com Lhasa há mais de dez anos, é ela que a protege de tudo: "Ficava à porta dos bares de Montréal a chamar as pessoas, dizia-lhes que se não gostassem dela devolvia-lhes o dinheiro". E depois: "Nunca tive de o fazer", e sorri, matreira.

"Lhasa, ne fais pas ça." E Lhasa vem, olha o caderno, sorri: "J'ai un comme ça", que imediatamente tira da mala. Folheia-o e mostra-o: "é o meu diário, tenho pilhas e pilhas deles". Uma letra cuidada, redondinha e inclinada, depois fecha de novo o caderno e num repente: "Porque é que usas quadriculado? Não consigo escrever em quadriculado". Tímida, sim, e tensa, sim. A 20 de Agosto deste ano a TV5 passava um programa especial que lhe era dedicado e em que ela quase não abria a boca. "Ele [o entrevistador] estava muito nervoso. É muito filosófico e achou, por alguma razão, que comigo podia alongar-se." As mãos entrelaçam-se enquanto fala. "Foi tenso". E os dedos de uma mão de novo num rodilho de voltas pela outra mão fora.

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Esta reportagem é terrível. Confusa até à exaustão, presunçosa ...

Leonor Santos

04.01.2010 22:00

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