Jim Marshall não era músico, mas a música deve-lhe muito. Porque o rock’n’roll, na verdade, não é apenas a música. É a imagem que a música projecta, é mito e iconografia que a contaminam irremediavelmente. E por isso Jim Marshall, que morreu na madrugada de quarta-feira em Nova Iorque, faz parte da história do rock’n’roll. Foi ele que fotografou Jimi Hendrix em Monterey, ajoelhado perante a guitarra em chamas, foi ele que o único a ter acesso aos bastidores do último concerto dos Beatles, foi ele que imortalizou Johnny Cash enquanto “Man in Black”, o do pirete lançado à objectiva na prisão de San Quentin.
Natural de Chicago, mas habitante de São Francisco a maior parte da vida, Marshall, 74 anos, estava em Nova Iorque para promover “Match Prints”, o seu último livro, co-assinado com Timothy White. Morreu durante o sono, de causas não apuradas.
O "glamour"das suas fotos, na esmagadora maioria a preto e branco e tiradas com a inseparável Leica, residia, paradoxalmente, na ausência de quaisquer artifícios. Marshall exigia acesso total aos músicos que fotografava, captando-os em palco, do palco, ou seguindo-os durante dias como se fosse um deles, não como intruso.
A sua carreira começou durante uma passagem por Nova Iorque, na década de 1960. Iniciou-se no jazz: Um encontro fortuito com John Coltrane resultou no primeiro retrato. Seguiram-se Thelonius Monk ou Bob Dylan e, no regresso a São Francisco, o retratar de toda a cena psicadélica em gestação, dos Grateful Dead a Janis Joplin.
Em 1969, foi o fotógrafo oficial em Woodstock, e, três anos depois, acompanhou uma digressão dos Rolling Stones em reportagem para a revista "Life". Ao longo da sua carreira, imortalizou uma imensa lista de músicos, de Jim Morrison a Neil Young, dos The Who aos Red Hot Chili Peppers - Anne Leibovitz definiu-o como “‘o’ fotógrafo rock’n’roll”.
Nas últimas décadas, a sua produção foi rareando. Em parte pelo avançar da idade, em parte por lhe ser cada vez mais difícil garantir a intimidade num universo pop que, com a multiplicação de agentes em volta dos artistas, foi erguendo demasiadas barreiras ao estilo de que não abdicava.
No livro “Not Fade Away”, editado em 1997, escreveu: “Quando estou a fotografar não dou quaisquer instruções. Não há pessoal do cabelo a meter-se, não há maquilhadores. Sou como um jornalista, mas com uma câmara. Reajo ao objecto no seu ambiente e, se está a correr bem, sinto-me tão absorvido que eu e a câmara tornamo-nos um só”.
Notícia actualizada às 20h39


