A década de ouro de Roy Scheider foi a de 1970. Foi então que fez aquele que considerou ser o papel da sua vida, o de Joe Gideon em "O Espectáculo Vai Começar" ("All That Jazz", 1979), foi então que recebeu duas nomeações para Óscar e foi nessa década que protestou nas ruas contra a guerra no Vietname. Mas foi o seu trabalho de 1975 que, para o bem e para o mal, deixou marcas dentadas na sua carreira. Roy Scheider protagonizou, juntamente com três modelos mecanizados de um agressivo peixe, o primeiro "blockbuster" de Verão norte-americano, "Tubarão" ("Jaws").
Roy Scheider morreu domingo num hospital em Little Rock, no Arkansas, vítima de uma forma de cancro da medula óssea, o mieloma, e de complicações derivadas de uma infecção por estafilococos, como disse a sua mulher, Brenda Seimer, ao "New York Times". A sua idade não é certa, embora a maioria dos média esteja a noticiar que morreu aos 75 anos. Scheider terá nascido a 10 de Novembro de 1932, em Orange, subúrbio de Nova Jérsia, mas em algumas entrevistas, assinalam alguns jornais, Scheider disse que nasceu em 1935.
Ao longo de cinco décadas de carreira, o actor fez mais de 60 filmes e participou em inúmeras peças e trabalhos televisivos. A sua estreia profissional, à saída da universidade, foi em 1961, com o papel de Mercúcio numa produção de "Romeu e Julieta" no Festival de Shakespeare de Nova Iorque. Mas o papel de Martin Brody, o chefe de polícia de uma vila balnear atemorizada por ataques de um tubarão branco, é aquele pelo qual Scheider temia ser lembrado. O papel “vai ficar na minha pedra tumular”, lamentou ele, citado pelo "Los Angeles Times".
Mas ao longo dos anos, o actor norte-americano foi dando sinais que não eram só de cansaço em relação ao seu protagonismo em "Tubarão". Afinal, sentia-se sortudo por ter participado em tantos filmes de relevo. “Fui afortunado por ter feito três filmes que considero marcos”, disse Roy Scheider à Associated Press em 1986. “«Tubarão» foi o primeiro grande "blockbuster" de aventura”, reconheceu. Mas “«Os Incorruptíveis Contra a Droga» ("The French Connection", 1971) desencadeou toda uma era (de filmes a partir) da relação entre dois polícias”. O papel de Buddy Russo, parceiro de rondas de Gene Hackman, deu-lhe a primeira nomeação para um Óscar, desta feita de melhor actor secundário, e colocou Roy Scheider numa outra categoria de actor: a estrela.
Mas para Scheider, houve outro filme “marco” na sua carreira e na história do cinema: "O Espectáculo Vai Começar", em que interpreta o alter-ego do argumentista e realizador Bob Fosse, um coreógrafo da Broadway cujo combustível eram as anfetaminas. O papel da sua vida, o papel pelo qual gostaria de ser recordado e para o qual teve de aprender a dançar. “«O Espectáculo Vai Começar» não tem nada a ver com os velhos musicais da MGM”, disse à Associated Press. “Este será sempre o meu filme preferido. Mas nunca trabalhei tanto na vida. Senti que tinha de prestar provas perante a companhia de dança. Não queria representá-los mal...”, disse em 1999 numa entrevista ao "San Jose Mercury News". Foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor, mas o vencedor foi Dustin Hoffman, em "Kramer Contra Kramer".
A sua carreira foi feita de incorporações de figuras de autoridade ou então de homens comuns chamados a lidar com circunstâncias imprevistas. O seu ar de "boxeur" facilitou que lhe fossem dados papéis de “tipos duros”, mais credíveis com o nariz ligeiramente torto que ostentava desde que um combate de boxe na adolescência que lhe correu menos bem.
A infância de Scheider não lhe deixou as melhores recordações. Sempre falou de uma meninice entregue a uma cama durante largos anos, devido à febre reumática. Quando estava melhor, lia ou ia às matinés do cinema de Irvington, mas só quando o pai não precisava dele na estação de serviço da família, trabalho que detestava.
A sua carreira começou pelo teatro mas estendeu-se, ao longo de tantas décadas, a todas as áreas. Perdeu um papel importante, o de protagonista em "O Caçador" (Deer Hunter), que acabou por ir para Robert DeNiro, porque estava contratualmente preso às sequelas de "Tubarão".
Mas a sua vida profissional foi marcada por grandes títulos:" Klute - O Passado Condena" (1971), "O Homem da Maratona" ("Marathon Man", 1976), "Na Calada da Noite" ("Still of the Night", 1982), "A Casa da Rússia" ("The Russia House", 1990) ou "Festim Nu" ("Naked Lunch", 1990).



