O criador de Holden Caulfield não publicava desde 1965

Morreu J.D. Salinger, o eremita das letras

29.01.2010 - 09:04 Por Isabel Coutinho

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O autor fetiche da geração do pós-guerra nasceu em Manhattan, em 1919 O autor fetiche da geração do pós-guerra nasceu em Manhattan, em 1919 ()
Holden Caulfield, a personagem mais carismática criada pelo escritor norte-americano J.D. Salinger, que morreu na quarta-feira aos 91 anos, queria que, quando morresse, alguém tivesse bom senso suficiente para o lançar num rio ou coisa parecida.

Podiam fazer-lhe tudo, menos colocá-lo num maldito cemitério, onde as pessoas vão aos domingos depositar ramos de flores no estômago dos mortos e toda essa treta. "Quem quer flores quando está morto? Ninguém", dizia o adolescente.

Ontem, ao final da tarde, Phyllis Westberg, o agente literário do autor de "Uma Agulha no Palheiro", divulgou em comunicado que o escritor morreu de causas naturais em sua casa em Cornish, New Hampshire, nos Estados Unidos. No documento, a família explica que em coerência com o desejo mostrado por Salinger ao longo de toda a vida, de proteger e defender a sua privacidade, não haverá serviço fúnebre. Pedem respeito pelo escritor e pelo seu trabalho e que a privacidade também se estenda à família, individual e colectivamente, durante este momento de luto.

A passagem do famoso romance "The Catcher in the Rye" publicado em 1951 ("Uma Agulha no Palheiro" ou na mais recente tradução portuguesa "À Espera do Centeio") citada em cima foi lembrada por Gregory Cowles, ontem, no blogue Paper Cuts, do "New York Times". Ele escrevia: "Sentimos tanto a falta de J.D. Salinger durante tanto tempo que podemos agora lançar-lhe um adeus e desejar que descanse em paz."


Autor fetiche do pós-guerra
Acabaram-se assim as mistificações à volta de J. D. Salinger, um escritor com uma história particular e a quem o New York Times chamou "a Garbo das Letras", "famoso por não querer ser famoso". Alguém, com uma obra composta por um romance (que era lido como um rito de passagem) e três novelas e livros de contos ( o último publicado em 1965), que foi capaz de tomar a decisão de desaparecer para sempre dos olhares do resto do mundo no auge da fama. Sabia-se que estava vivo mas pouco mais.

Até que no ano passado, aos 90 anos, o escritor conseguiu que um juiz federal impedisse, por tempo indeterminado, a publicação nos EUA do livro "60 Years Later: Coming Through The Rye", uma sequela não autorizada escrita pelo sueco Frederick Colting do seu clássico.

Os vizinhos em Cornish raramente o viam, afirma a Reuters, e Salinger nunca respondia a telefonemas ou a cartas de leitores. Teria sido uma desilusão para a personagem que ele próprio inventou, pois, lembra a agência noticiosa, Holden Caulfield dizia que o que realmente mexia com ele era um livro que, quando se acaba de ler, nos faz desejar que o autor que o escreveu seja nosso amigo e lhe possamos telefonar quando nos apetecer.

O autor fetiche da geração do pós-guerra, Jerome David Salinger, nasceu em Manhattan, em Nova Iorque, em 1919. Era filho de Sol Salinger, um importador de queijo, e de Marie Jillich. Começou a escrever aos 15 anos, quando entrou no colégio militar da Pensilvânia. Aí descobriu Hemingway e Fitzgerald e o seu pai, que tinha enviado o filho para a Europa onde faria um estágio para se aperfeiçoar na carreira da indústria alimentar, rendeu-se à evidência: ele nunca lhe iria suceder no negócio de família.

De regresso aos EUA, em 1940, publica a sua primeira história numa revista: "The Young Ones, na Story". Em 1942, é chamado para a Segunda Guerra Mundial. Participa no desembarque na Normandia e na libertação de Paris, onde conhece aquela que viria a ser a sua primeira mulher, Sylvia.

Começa a publicar contos na revista "New Yorker" em 1946, o primeiro com a personagem Holden Caulfield, que aparecerá depois em "Uma Agulha no Palheiro", em 1951. Foi com as aventuras do adolescente de 16 anos que ficou famoso. Por causa das críticas a Franny e Zooey, de 1961, torna-se um eremita. Numa rara entrevista ao "New York Times", em 1974, disse que encontrou uma "paz maravilhosa" ao deixar de publicar por ser uma invasão terrível da privacidade e revelava: "Gosto de escrever. Mas escrevo só para mim e para meu próprio prazer."

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Foi uma agradável leitura

1 único que vale ouro e tantos de palha nas obras de Lobo Antunes e Saramago.

António Chéney

29.01.2010 22:32

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