Morreu Gustav Leonhardt, o mestre dos cravistas do século XX

17.01.2012 - 17:31 Por Cláudia Carvalho
O músico, instrumentista e chefe de orquestra Gustav Leonhardt, que em Dezembro anunciou o fim da sua carreira, morreu na segunda-feira, aos 83 anos, na sua casa em Amesterdão. O holandês, que é considerado um dos intérpretes mais importantes do século XX, estava doente há muito tempo.
Tinha a agenda programada para 2012 mas a 12 de Dezembro despediu-se em definitivo dos palcos no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris. Já muito fraco e debilitado, Gustav Leonhardt, tido como uma referência no cravo, anunciou não ter mais capacidades para continuar a trabalhar.
Foi um dos grandes pioneiros na recuperação da música antiga. Gustav Leonhardt teve a perspicácia de redescobrir os reportórios antigos, ainda anteriores a Mozart, recuperando a sua interpretação em instrumentos de época, bem como os estilos e as práticas de execução. De facto, Leonhardt devolveu-nos Bach, Couperin, Scarlatti, Frescobaldi ou Haendel numa sonoridade mais próxima da ideia do compositor, expurgando a música do renascimento e do barroco da influência do romantismo.
Para Cristina Fernandes, crítica de música clássica do PÚBLICO, Gustav Leonhardt, era “a grande autoridade” da música antiga e o “mestre dos cravistas do século XX”. O Le Nouvel Observateur escreve hoje que Gustav Leonhardt “não apenas redescobriu um estilo esquecido de uma época, a barroca, como também a forma de a tratar, de se confrontar com ela: respeitosa e livre, rigorosa e imaginativa”.
Em Portugal, era uma presença regular, da Casa Mateus, em Vila Real, à Gulbenkian, em Lisboa, passando pelo Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim.
Filho de músicos amadores, Gustav Leonhardt, que nasceu na Holanda em 1928, cedo se interessou pela música, iniciando-se no órgão e no cravo ainda em criança. Depois de concluir o bacharelato, estabeleceu-se na Suíça onde veio a frequentar a Schola Cantorum de Basileia, sob a orientação de Eduard Müller.
Anos mais tarde foi nomeado professor de Musicologia e Cravo na Academia de Música de Viena, tendo depois voltado à Holanda, onde integrou o corpo docente do Conservatório de Amesterdão.
Paralelamente à carreira de docente, Gustav Leonhardt nunca descurou a prática da música e desde 1950 que desenvolveu actividade como solista de cravo e órgão, realizando recitais por todo o mundo. Ao longo da sua carreira realizou diversas gravações, como solista ou como membro de formações de câmara, para editoras como a Telefunken, a Philips ou a Harmonia Mundi.
Segundo a biografia do músico no site da Fundação Gulbenkian, no domínio da Musicologia, Gustav Leonhardt publicou um estudo detalhado sobre “A Arte da Fuga de Johann Sebastian Bach”, tendo igualmente supervisionado a publicação de uma colectânea de música de câmara do século XVII para a editora Universal. Foi também o responsável pela revisão técnica da integral da obra para tecla de Sweelinck, editada pela Sociedade Holandesa de História da Música.
Mas nem só de música se fez a sua carreira, contando no seu currículo ainda uma participação no cinema. Em 1967, Gustav Leonhardt interpretou o papel principal (J. S. Bach) no filme “Crónica de Anna Magdalena Bach”, do realizador Jean Marie Straub.
Em 1980, recebeu o Prémio europeu ''Erasmus'' e, nos anos de 1983, 1984, 1991, 1998 e 2000 foi distinguido com vários doutoramentos honoris causa.


