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Morreu Eric Rohmer, homem de palavra

11.01.2010 - 17:23 Por Luís Miguel Oliveira

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Éric Rohmer Éric Rohmer (JP Laffont/Sygma/Corbis)
Surpresa, morreu Eric Rohmer: era daqueles que já acreditávamos serem imortais. Como se entre ele e o “Fausto” de Murnau, o seu mais adorado filme e o seu mais adorado cineasta, houvesse, por sua vez, algum pacto. Estava prestes a fazer 90 anos e realizara em 2007 o seu último filme, “Os Amores de Astrée e Celadon”, belíssimo e rohmerianíssimo fecho de obra, e filme onde o cineasta, que sempre fez as palavras “fazerem coisas”, as fez fazer coisas inauditas. Como, por exemplo, mudar o sexo das personagens.

“Efeitos especiais”? É mentira que não os haja em Rohmer, o seu cinema está cheio deles: chamam-se “palavras” e são um dos principais eixos da sua obra. Numa entrevista dada por ocasião da estreia do seu penúltimo filme, “Agente Triplo”, em 2004, e agora reposta no sítio “online” do “Libération”, Rohmer resumiu: “voilá, eis a minha especialidade: encenar a palavra e o seu poder”.

Depois de “Astrée e Celadon” Rohmer teria dito que estava na “altura da reforma”. É crível que, por mais anos que vivesse, a sua obra estivesse encerrada. Se as contas não nos falham, vinte e quatro longas-metragens de ficção, a que acresce um valente punhado de curtas-metragens e um sem número de trabalhos para a televisão, de âmbito literário e cinematográfico, e de onde há destacar (pelo menos) dois filmes extraordinários: o episódio dedicado a Carl Dreyer na série “Cinéastes de Notre Temps” e, para outra série televisiva (“Aller au Cinéma”), “Louis Lumière”, fabuloso retrato da “fundação” do cinema a partir de uma conversa com (e entre) Jean Renoir e Henri Langlois.

E, claro, não se pode esquecer isto, porque foi de onde tudo começou: Eric Rohmer foi um dos mais brilhantes críticos de cinema do século XX, a apesar de ser, “grosso modo”, dez anos mais velho do que os seus companheiros (Rivette, Godard, Truffaut), fez parte da “ínclita geração” dos Cahiers du Cinéma dos anos 50 (revista cuja redacção dirigiu entre o final dessa década e o princípio da de 60). Antes disso, ainda, tinha sonhado ser escritor: a série dos “Contos Morais”, por exemplo, começou por ser um projecto literário. Romancista “falhado”, Rohmer converteu-se, sem amargura especialmente visível, em cineasta excepcional.

Rohmer acompanhou os seus colegas mais jovens na passagem à realização, e tornou-se um nome central da “nouvelle vague”. Talvez por ser o mais velho, já não ter idade para “sprints” e, pelo contrário, ter coração de fundista, de entre os cineastas da “nouvelle vague” a sua estreia foi a mais discreta de todas. “Le Signe du Lion”, primeira longa (em 1959/60), contemporânea do estardalhaço provocado pelos “400 Golpes” de Truffaut e pelo “Acossado” de Godard, praticamente passou despercebido.

Num impasse criativo, Rohmer lembrou-se da sua frustração literária, os “Contos Morais”. Passou-os a filme e saiu-lhe a sorte grande: de episódio em episódio (seis, entre 1963 e 1972), a sua popularidade foi crescendo e o seu nome foi-se firmando. Depois da série dos “Contos Morais”, Rohmer, que não só apreciava este tipo de arrumação serialista como estimulava as rimas internas, os jogos de espelhos, os exercícios de geometria narrativa, dedicou-se ainda a mais duas séries: as “Comédias e Provérbios”, entre 1981 e 1987 e, acompanhando a década de 90, os “Contos das Quatro Estações”.

Com vários filmes de permeio, todos eles altamente significativos: enquanto nas séries filmava personagens e ambientes contemporâneos, nos filmes “avulsos” dedicava-se, frequentemente, a adaptações literárias (“Perceval le Gallois”, a partir de Chrétien de Troyes, e “A Marquesa d’O”, baseado em Kleist, nos anos 70) e temas históricos, como nos três filmes que fez no século XXI, que visitam a Revolução Francesa (“A Inglesa e o Duque”), os anos 30 (“Agente Triplo”) e a Gália do tempo do Império Romano (“Os Amores de Astrée e Celadon”).

O Marivaux do cinema francês, chamaram-lhe muitas vezes. E muitas vezes Rohmer se dedicou aos jogos amorosos e à volatilidade das paixões, nas mais diversas circunstâncias. Gostava de repetir uma frase que tinha aprendido com um seu professor no liceu, que ao que parece desconfiava da psicanálise: “o inconsciente? o inconsciente é o corpo!”. E as palavras, apenas a maneira racional de justificar e moralmente enquadrar as coisas (o desejo, a paixão) que o corpo diz sem palavras. A natureza humana: sobre ela, a obra de Rohmer é um tratado. Indispensável e inimitável.

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"Nouvelle Vague"

Nouvelle Vague,.............."Journal d'un scélérat"..................etc. / ...

AABdSL

11.01.2010 22:24

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