Aos 83 anos, vítima de cancro

Morreu Dominick Dunne, colunista judicial e social

27.08.2009 - 15:05 Por Joana Amaral Cardoso

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Dominick Dunne com os filhos Dominick Dunne com os filhos (Reuters)
A morte de um colunista tem destas coisas – os casos que cobriu, as publicações com que colaborou e as coincidências da actualidade cruzam-se num novelo mediático. Dominick Dunne morreu quarta-feira aos 83 anos, vítima de cancro na bexiga sobre o qual chegou a escrever na "Vanity Fair", o seu principal púlpito nos últimos anos.

Morreu no mesmo dia em que o senador Ted Kennedy faleceu, com a família de Dunne a tentar não tornar pública a sua morte para que não fosse ofuscada pela do derradeiro irmão Kennedy. E morre quando está nas bancas a edição de capa dupla da "Vanity Fair" que recupera a morte de Michael Jackson e de Farrah Fawcett, actriz cujo desaparecimento foi ofuscado pelo do rei da pop. E que, nos últimos meses de vida, esteve na mesma clínica na Alemanha que Dominick Dunne, ambos a experimentar novas terapias oncológicas.

Dominick Dunne era um elegante homem de óculos redondos que abandonou uma careira de produção cinematográfica para se dedicar à cobertura e escrita de livros sobre casos judiciais e julgamentos famosos. Mas também pelo facto de circular pelas altas esferas da sociedade europeia e americana, convivendo e entrevistando Elizabeth Taylor, Diane Keaton, Warren Beatty, Annette Bening, Robert Mapplethorpe ou Imelda Marcos.

Pela pena de Dunne passaram o julgamento de O.J. Simpson, o processo de "impeachment" de Bill Clinton, o julgamento de Phil Spector e dos irmãos Erik e Lyle Menendez e também a morte da princesa Diana. Foram essas coberturas, tanto para a Vanity Fair quanto para a então chamada Court TV, que o tornaram famoso nos anos 1990. Era conhecido pelas descrições com ponto de vista e por se colocar do lado das vítimas, assumindo que tal advinha do homicídio da sua filha, a actriz Dominique, de 22 anos, às mãos do ex-namorado que viria a cumprir apenas três anos de prisão pelo crime. “Estou farto de que me peçam para chorar por assassinos. Perdemos o nosso sentido de indignação”, dizia. O primeiro texto que escreveu para a "Vanity Fair", em 1984, foi exactamente sobre o homicídio da filha.

A sua própria vida, iniciada numa família abastada de origem irlandesa e católica mas com um pai violento, não escapou à agitação que viria a encontrar nos casos que relataria: foi medalhado após a II Guerra Mundial, na universidade fundou um grupo de teatro com Stephen Sondheim, casou com o amor da sua vida e teve três filhos, mas o divórcio levou-o ao alcoolismo e à cocaína, a uma detenção por posse de droga e à quase pobreza.

Nos anos 1980 e com a sua chegada aos 50 anos começou a escrever. O editor do seu primeiro romance ("The Winners"), Michael Korda, incentivou-o a escrever sobre os crimes dos ricos e poderosos e a partir daí suceder-se-iam vários livros (entre eles os best-sellers "As duas senhoras Greenville" e "An Inconvenient Woman"), programas de TV em nome próprio e convites para festas que transformava em fontes de informação. Por publicar deixou "Too Much Money", que será editado nos EUA em Dezembro. O editor da "Vanity Fair", Graydon Carter, recorda a admiração de Dunne por F. Scott Fitzgerald e pela sua máxima: “Dominic Dunne provou que, sim, há segundos actos nas vidas americanas, e que podem ser de facto fantásticos”. E a sua vida “foi, em si mesma, composta de muitas vidas”.

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