Beck tem um rato nas orelhas. Mais propriamente: em "Modern Guilt" o produtor Danger Mouse é, nitidamente, as orelhas de Beck. É ele quem depura os habituais "pastiches" sonoros do camaleão Beck, quem separa cada instrumento e impede que se instale a cacofonia, é ele quem aproxima o som do disco de algo mais pop.
Danger Mouse, tal como Beck, é um conhecedor exímio dos mais sombrios entrefolhos da música popular, ampliou cada dobra suja da pop, rebolou em obscuridades. Mas se Beck só funciona em pleno quando "estraga" uma canção com algo inesperado, Mouse tem ganho nos últimos anos uma maior magnanimidade perante o objecto pop: se há uma boa melodia, deixem-na estar. Exemplo: quando ouvimos o tema-título do disco - começa com uma malha de guitarra em versão mansa de uns White Stripes (ou, por mais estranho que pareça, dos Queens of Stone Age nos seus momentos mais pop) - não conseguimos evitar pensar que o arranjo de guitarra à Pixies que por lá surge é ideia do produtor e não do compositor (Note-se que a canção acaba com cordas por cima, dando uma volta à ideia inicial). Pensamos o mesmo da verve Beatlesca de "Chemtrails", pensamos o mesmo de uma data de pormenores ao longo do disco, particularmente na electro-pilhagem aos Joy Division que ocorre em "Profanity prayers". Que isto não diminua o papel de Beck: por norma quando o homem tenta despir as suas canções torna-se aborrecido, desta feita encontra um equilíbrio raro. Há sempre um gancho (de guitarra, as guitarras estão por todo o lado e têm um som bestial), sempre uma curva que leva cada tema para uma zona inesperada, um truque (palminhas ou um break inesperado ou um som digital onde menos se esperava, um coro), há sempre uma linha de baixo simples e preciosa, nunca há exageros: Beck não berra, não guincha, não faz falsete, encontra um tom menor que não procura humor algum, antes servir as canções de forma eficaz. São 10 canções apenas e à primeira destaca-se a electro-folk de "Orphans" - directa, polvilhada de minúsculos sons digitais, um piano a ecoar, flautas a pairar e um refrão à Byrds com xilofone em fundo; à primeira as malhas de "Soul of a man" ou de "Gamma ray" são tremendamente viciosas, à primeira "Youthless" provoca abano de ombros, à primeira há uma canção admirável em "Walls": tremendo jogo de cordas, tremendo break manso; à primeira a entrada quase hip-hop instrumental de "Replica" fica acima da parte vocal. São dez temas que vão encorpando com o tempo - não é um disco perfeito, não há nenhum single abissal, mas é tudo muito acima da média, disco que roda vezes consecutivas sem cansar, como quem emborca caipirinhas ao fim da tarde não reparando que vai acabar um bocado bêbedo.


