Mira Amaral e Carrilho trocam acusações sobre a suspensão da barragem do Côa 15 anos depois

29.07.2010 - 10:35
O então ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho é o "grande responsável" pelo "disparate" de suspender a construção da barragem no Vale do Côa devido a gravuras rupestres, acusou ontem Mira Amaral, ex-ministro da Indústria de Cavaco Silva.
Em 1995, pouco depois de ter sido nomeado ministro da Cultura, Carrilho promoveu a preservação das gravuras, uma decisão de que não se arrepende. Em resposta às acusações de Mira Amaral, Carrilho diz que o "ressentimento é sempre mau conselheiro, além das escamas que cria, pode também implicar - como se vê - alguma dissonância cognitiva".
Mira Amaral também não poupa o "grupeiro de paleolíticos" e a atitude "demagógica" de Mário Soares que popularizou em 1995 a frase "As gravuras não sabem nadar". Lembrando a decisão de há 15 anos, Mira Amaral considera que houve "irresponsabilidade, demagogia, vergonha completa e incompetência", num processo que ainda irá conhecer outros desenvolvimentos: "Quando não sei, como diria o outro, mas não tenho quaisquer dúvidas que, sendo a água um recurso escasso do século XXI, aquela região vai precisar da barragem, em termos de gestão da globalização da água, como pão para a boca".
O antigo governante lamenta o chumbo do "projecto integrado" do PSD que possibilitava a existência da barragem e do Parque Arqueológico, recordando a disponibilidade da EDP para aplicar 15 milhões de euros nas "dimensões" arqueológica e cultural. Agora, subsistem vários núcleos de gravuras visitáveis e amanhã é inaugurado o novo Museu do Côa.
Mira Amaral continua a duvidar da datação das figuras. Os "paleolíticos portugueses" trouxeram um especialista, que rejeitou a época "que eles diziam", mas houve "uma chantagem e uma pressão tal que 15 dias depois acabou por mudar de opinião".
Carrilho sublinha que as decisões se basearam em "pareceres dos maiores peritos mundiais na matéria, que as consideram a maior descoberta do século XX, no âmbito da arte paleolítica". E que "foram consagradas pela sua classificação da UNESCO como Património da Humanidade".
"O Governo Guterres cedeu a um lobby de paleolíticos, que tomou conta dos jornais", acusa Mira Amaral, responsabilizando em particular o Ministério da Cultura: "O senhor Manuel Maria Carrilho é que foi o grande responsável por esse disparate que se fez em Foz Côa" e que cedeu a um "grupelho irresponsável".
Porém, Carrilho diz ter "o maior orgulho" na decisão tomada: "É bom verificar que ela se tornou num caso internacional constantemente referido como exemplar na defesa do património". E critica o afastamento do arqueólogo João Zilhão, grande defensor das gravuras, dos cargos públicos que exercia em Portugal.


