Miguelanxo Prado: a Internet substituiu as publicações periódicas

10.05.2008 - 07:23 Por Carlos Pessoa
Após cinco anos de imersão total no cinema de animação, o ilustrador e autor de banda desenhada galego Miguelanxo Prado regressa à banda desenhada. O próximo ano e meio será consagrado a desenvolver uma novela gráfica, mas também ocupado na promoção internacional da sua longa-metragem, De Profundis.
Nascido em 1958, é o mais conhecido e premiado criador galego de banda desenhada – a sua obra foi praticamente toda editada em Portugal – e figura de proa de uma mostra sobre quadradinhos daquela autonomia espanhola que pode ser vista a partir de hoje no IV Festival Internacional de BD de Beja. Um agradável café no centro histórico da cidade de Betanzos, não muito longe da residência do artista, na província galega de A Corunha, foi o palco desta entrevista exclusiva.
Como é que um bem-sucedido criador de banda desenhada passa cinco anos a realizar uma longa-metragem de animação?
Colaborei durante quatro anos na realização da série Men in Black para televisão e em outros projectos para a televisão da Galiza. O nível de responsabilidade de autoria no cinema é muito mais diluído e pequeno do que aquilo a que estava habituado ao fazer banda desenhada e ilustração ou a pintar. Por isso, fiquei com vontade de desenvolver um projecto de animação em que sentisse verdadeiramente essa sensação de que era autor, criador. Ou seja, tendo um controlo completo, absoluto e seguro sobre o projecto.
Acabei por fazer uma longa-metragem sem diálogos, que narra uma história em que há unicamente imagens e música. É um filme de autor que não tem nada a ver com o universo dos estúdios Disney ou da Pixar... É uma animação que poderíamos caracterizar como sendo pintura animada. A minha intenção era manter no filme uma série de coisas que desaparecem na animação tradicional, como é o caso da textura, da matéria, o traço pessoal do autor, o trabalho com a cor completa e não cores planas, etc. Abreviando, o que fiz foi pintar com pincel ou brocha sobre o ecrã, incluindo todos esses componentes que têm habitualmente os meus trabalhos. Tive a incrível colaboração do compositor Nani Garcia, um músico de jazz que há anos, sem abandonar a música, tem vindo a fazer trabalhos para o cinema e televisão. Criou uma composição com a mesma duração da película – 80 minutos de música –, que é uma partitura sinfónica para uma orquestra sinfónica de 80 músicos com um coro de 45 vozes e uma secção de percussão étnica. Ou seja, um projecto muito ambicioso. O resultado final dessa colaboração é o filme de animação De Profundis.
Quanto tempo levou a realizar o filme?
Foram quatro anos de trabalho efectivo, mais o período de preparação. Todos os desenhos, do primeiro ao último, foram feitos inteira e completamente por mim. Só tive assistentes na montagem, mas não no desenho ou na pintura. Isto quer dizer que, para bem ou para mal, as imagens são única e exclusivamente da minha responsabilidade.
Fez mais alguma coisa durante esse tempo?
Nada. Era impossível!... Quando comecei a trabalhar ainda tinha intenção de manter um certo ritmo de trabalho fazendo uma ou outra coisa, mas não houve hipótese.
Quem financiou o projecto?
Contámos com um investidor privado, Águas de Cabreiroa, que estava a celebrar o centenário e achou que era um projecto interessante para financiar. O encerramento das comemorações foi a realização de dois espectáculos com a interpretação em vídeo directo da música com orquestra e coro e projecção do filme, aqui em A Corunha. Foi muito espectacular.
Além desse contributo, tivemos apoios dos Governo galego e espanhol, do ministério da Cultura e, o que também foi muito importante, do programa europeu Eurimages, que apoia projectos que consideram ser de especial interesse cultural e artístico. Sem esses financiamentos o projecto seria inviável.

