No dia 26 de Setembro de 1992, Michael Jackson apresentou a sua “Dangerous Tour” no estádio de Alvalade, em Lisboa. Foi a primeira e única vez que o "rei da pop" esteve em Portugal. Luís Maio esteve lá e descreveu “o maior show do mundo” como 100 por cento artificial e repetitivo. Este é o seu texto, na íntegra.
Qualquer artista pop que se preze dirá que o gozo das digressões reside em todos os concertos serem diferentes. Mas Michael Jackson é o maior e, se calhar por isso, as actuações desta sua “Dangerous Tour” são tiradas a fotocópia, sem que isso implique a mínima perda de espectacularidade.
Vimos o concerto em Barcelona, lemos as reportagens nos principais jornais europeus, do britânico “Melody Maker” ao espanhol “El País”. Depois fomos a Alvalade para concluir que esta digressão é como um “rodeo”: quando se viu um “show”, viram-se todos. E se houve alguma diferença, veio do público, não do artista.
Ninguém manda em nós
Em Lisboa apontou-se para uma assistência a rondar os 60 mil espectadores, mas havia mais espaço livre que ocupado na relva e a bancada frente ao palco estava vazia. De resto, cá fora, uma boa dezena de pessoas procuravam em desespero vender bilhetes ao preço de ocasião de 2 mil escudos (outro saldo eram duas “t-shirts” por 1500 escudos sob o pregão “sempre pode servir para tiro ao alvo”). Típico do concerto português foi a chuva e a descida da temperatura, o consequente domínio do amarelo-oleado a combinar com o azul-ganga, em efeitos muito apropriados ao espírito “united colors” do evento.
A pretexto da gravação do espectáculo para a televisão norte-americana, o concerto de Alvalade contou também com a original aparição em palco, escassos minutos antes da entrada da estrela, de um apresentador decidido a “aquecer” a malta. Para domador de massas não tinha grande talento e o povo acabou por fazer mais barulho a assobiá-lo quando saiu, do que quando ele pediu repetidamente para se gritar “Michael” em coro. De qualquer modo, a quem interessa que os “yankees” fiquem como retrato de um mar de cabeças e chapéus-de-chuva portugueses?
A festa nas bancadas começou, justamente, depois do dito animador desistir de a forçar, quando o estádio inteiro se afoitou no tradicional passatempo de levantar os braços para fazer a onda. Esta irreverência do público português, de só entrarem cegadas quando lhe dá para isso, foi mesmo uma das constantes agradáveis do espectáculo de Alvalade. Chegou ao ponto da assistência não dar grande troco quando Michael pediu coro, mas de cantar afinado “We are the world” sem ninguém lhe pedir, ainda que o arranjo da versão instrumental fosse bastante diferente do original.
O mais estranho humanismo
As iniciativas de espontaneidade colectiva contrastaram comum programa repetido, dos traços largos aos mínimos pormenores. Um preâmbulo paramilitar: sons de “Carmina Burana” com imagens de multidão, entrecruzadas com planos da vedeta numa montagem vertiginosa. Uma primeira parte variada: “Jam” para Michael inaugurar as suas habilidades dançantes, “Startin’ something”, para se afagar entre as pernas; “Human nature”, para mostrar que também canta; “Smooth criminal” para reconstituir o vídeo em palco.
Um segundo andamento meloso de nostalgia dos Jacksons; depois a festa aparatosa dos hits audiovisuais com recriações das coreografias dos telediscos de “Thriller”, “Billy Jean” “Beat It”, e a canção “Work day and Nnight” colada a uma citação do seu clip masturbatório, para acentuar a dialéctica actuação/teledisco. Uma quarta fase de humanismo infantil e panglobal: as baladas “Will you be there” e “Heal the world”, gospel, crianças, beijos para a plateia, e globos terrestres por toda a parte. E o remate “2001” com Jackson — ou o sósia — a sair em voo sobre a plateia, depois de cantar “Man in the mirror”.


