Ao ritmo ditado pelos 40 anos de experiência, o artesão marroquino Aziz, com um martelo numa mão e uma cunha na outra, estampa numa bandeja de cobre um dos "mais de três mil desenhos" que guarda "na cabeça". Sentado à entrada do "souk" (mercado de rua) do quinto Festival Islâmico de Mértola, a decorrer até domingo, Aziz, de túnica branca e chapéu marroquino vermelho, mostra a quem passa a sua perícia numa arte típica do artesanato de Marrocos que aprendeu com o pai quando tinha seis anos.
"Os desenhos saem directamente da cabeça do artesão" para a bandeja, frisa à Lusa Aziz, de 46 anos e natural de Marraquexe, explicando que, à excepção das bandejas estampadas com desenhos tradicionais, cada bandeja "é única".
Cada artesão estampa desenhos "diferentes e únicos", por isso "não há duas bandejas iguais", explica Aziz, presença habitual no bienal Festival Islâmico de Mértola desde a primeira edição, precisando que uma bandeja marroquina pode custar "desde 50 até mil euros ou mais, depende do tempo de trabalho".
A arte de Aziz, uma "amostra" da "riqueza" do artesanato marroquino, "abre o apetite" para entrar e explorar o "souk" espalhado pelas ruas estreitas e íngremes do labiríntico centro histórico de Mértola, a lembrar as medinas do outro lado do Mediterrâneo.
"Até julgo que estou no Norte de África. Nunca tinha vindo a Mértola, mas não tenho noção de que estou aqui", no interior do Alentejo, confessa à Lusa Maria Helena Redol, de 67 anos, que veio directamente de Tomar "embalada" pela "curiosidade de ver" o "souk" do festival islâmico.
Comerciantes e sotaques de vários países do Mediterrâneo, como Marrocos, Egipto, Argélia, Espanha e Portugal, misturam-se para vender mil e uma coisas - roupas, calçado, peças de cerâmica, candeeiros, tapetes, bijutaria, chás, frutos secos ou bolos.
"É fantástico. É uma viagem. Vamos para fora cá dentro. Transporta-nos para outro sítio e até no tempo", explica à Lusa Mariana Lemos, de 26 anos, de Lisboa, que visita o "souk" pela segunda vez.
"Já tinha vindo cá no anterior festival há dois anos. Adorei e voltei este ano para repetir a experiência", diz Mariana Lemos, "em sintonia" com Manuela Baptista, de 43 anos e natural de Mértola.
"Adoro estes dias. Gosto da música, dos cheiros. É tudo diferente. Estamos num sítio diferente. Estamos em Marrocos. Devia haver mais vezes", confessa Manuela Baptista que passeia "à descoberta", calçada com as sandálias que comprou no "souk" há dois anos.
Aos pregões dos comerciantes junta-se a música tradicional de Marrocos tocada pelo grupo Gnawa Al-Baraka que, acompanhado por uma dançarina do ventre, se passeia de vez em quando pelo "souk" para "animar as hostes".
Vestido com uma "gandoura" azul, o traje tradicional dos homens na Argélia, o argelino Slimane vende em folhas de cartão a "arte de escrever árabe com letra bonita" além de "artesanato do deserto", como quadros de areia.
"Escrevo nomes de pessoas, de casais, poemas árabes e palavras do Corão com caligrafia árabe, que é muito bonita", explica Slimane, frisando que "as pessoas têm muita vontade de saber como se escreve o seu nome em árabe".
"E gostam de comprar um cartão com desenhos árabes e o seu nome escrito com caligrafia árabe", acrescenta Slimane, garantindo que os seus cartões são "os mais baratos" do "souk".
Artes como as de Aziz e Slimane, cores, sons, cheiros e sabores árabes que há mil anos "alimentavam" o quotidiano de Mértola, vão misturar-se até domingo no "souk" e nas várias iniciativas do Festival Islâmico, para reviver a herança islâmica da vila, que nos séculos XI e XII foi a capital de um reino taifa e um importante porto comercial nas rotas do Mediterrâneo.


