"Era amor." Não há outra forma de falar do trabalho de António Reis e Margarida Cordeiro. Juntos fizeram uma obra mítica do cinema português, filmada sobretudo em Trás-os--Montes. Agora, 18 anos depois da morte dele, ela vive numa aldeia retirada do mundo. Ou não?
Daqui a nada é noite. Subimos pela aldeia, à procura. No largo da igreja apontam-nos uma rua estreita. Metemos por ela a pé, até aparecer uma casa antiga de dois pisos. Janelas fechadas, trepadeiras, matagal, abandono. Uma rede de ferro por cima do muro na entrada, como se cá fora fosse hostil. E de repente ladram cães. Não um, nem dois, muitos cães invisíveis.
A aldeia chama-se Bemposta. À volta é o planalto mirandês, onde Portugal acaba no seu canto mais interior. Terra de gente que teve fome quando as crianças eram muitas e agora não tem crianças. Rebanhos, oliveiras, casas fechadas de quem anda na Espanha, na França.
E esta casa, aparentemente fechada para o mundo.
É aqui que vive Margarida Martins Cordeiro, co-autora de uma obra mítica do cinema português nos anos a seguir ao 25 de Abril.
Trás-os-Montes, o primeiro filme que assinou com António Reis, tornou-se uma referência para toda uma geração, e 33 anos depois da estreia continua a ser a súmula de algo português. "Para um povo e para um país à procura de si próprios", escreveu João Bénard da Costa, "é uma das poucas pedras do caminho que nos pode ajudar a reencontrar a direcção".
Tal como os restantes filmes da dupla, não é fácil vê-lo. Mantêm-se entraves à edição em DVD.
Mas a 4.ª mostra do documentário português Panorama (Cinema São Jorge, Lisboa, 9 a 18 de Abril) vai destacar a obra de António Reis e Margarida Cordeiro e serão exibidos os quatro filmes: Jaime (ainda só assinado por Reis), Trás-os-Montes, Ana e Rosa de Areia.
O projecto seguinte seria a adaptação da obra-prima do mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo (edição portuguesa na Cavalo de Ferro), mas Reis morreu em 1991. Margarida quis continuar a ideia, chegou a ir ao México fazer pesquisa, mas recebeu recusas sucessivas de subsídio até o filme ser aprovado. Nunca chegou a ser feito.
Já reformada do Hospital Miguel Bombarda, onde era chefe de serviço de psiquiatria, Margarida Cordeiro foi viver para a casa da mãe, em Bemposta. Anos depois, a irmã, Isabel, juntou-se-lhe.
É o que sabemos ao chegar, assim, sem aviso. Não temos um número de telefone. Vamos bater.
- Não estão - atalha a vizinha, sentada no degrau da casa em frente, explicando que todas as tardes as irmãs saem de carro com os cães.
Quando voltamos, uma hora depois, há um jipe mesmo em frente à entrada. Damos pancadas no portão porque não vemos campainha. O escuro enche-se de cães a ladrar. A porta de casa abre-se e sai uma mulher com uma romã na mão. Numa das cenas iniciais de Trás-os-Montes há uma menina a comer uma romã.
- Margarida Cordeiro?
- Sim?
E começamos a falar da romã e de Trás-os-Montes.
Ainda nem dissemos o nosso nome, só que vimos de Lisboa e do Porto. Margarida pede ajuda à irmã para manter os cães invisíveis nas traseiras, enquanto vários cães visíveis saltam à nossa volta.
Somos levados para a cozinha, onde cheira a lareira mas sobretudo a cão, e há algo de acampamento, como quem está barricado ali. Conversamos durante uma hora. No dia seguinte, Margarida vai visitar a campa de António. A irmã Isabel é que a conduz sempre. António e Margarida correram Trás-os-Montes sem carta de condução.
Fica combinado um reencontro dois dias depois, para uma entrevista, e assim é. Domingo, 1 de Novembro, descemos as curvas de Bragança até à Bemposta com vento, chuva e granizo. Depois, os cães já são quase nossos amigos e Margarida Cordeiro deu cor ao cabelo. Parece uma bailarina retirada, pernas flectidas por cima do braço da cadeira, ágil, fulminante. Não acredita que a idade existe, e quem acreditaria que ela tem 71 anos?
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