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Familiares colocam no mercado parte dos documentos em seu poder

Manuscritos importantes herdados de Fernando Pessoa vão a leilão em Outubro

26.05.2008 - 08:40 Por Kathleen Gomes

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Uma parte significativa do espólio de Fernando Pessoa que ainda se encontra na posse de familiares do poeta vai ser leiloada em Outubro, em Lisboa, pela P4 Photography.
Vão a leilão cartas, manuscritos, livros, revistas de Pessoa Vão a leilão cartas, manuscritos, livros, revistas de Pessoa (Pedro Cunha (arquivo))

Um dos documentos que pode atingir somas consideráveis é o chamado dossier Pessoa-Crowley, que reúne todos os papéis relativos ao encontro do poeta português com ocultista inglês Aleister Crowley, em 1930. Material que poderá suscitar o interesse de compradores ingleses, numa leiloeira em que 70 por cento das vendas são feitas para o estrangeiro.

Outras peças a leilão: cartas astrológicas, livros e revistas, entre as quais a Contemporânea e uma Orpheu com dedicatória de Almada Negreiros, manuscritos não especificados pela leiloeira e o contrato de arrendamento da casa da Rua Coelho da Rocha, que é hoje sede da Casa Fernando Pessoa. Será um leilão mais ambicioso do que os realizados em Novembro de 2006 ou Dezembro de 2007 pela mesma leiloeira, que incluíam fotografias de época de Pessoa. "É muito mais complexo leiloar papéis do Pessoa do que fotografias", nota o colombiano Jeronimo Pizarro, um dos investigadores que tem trabalhado na edição crítica da obra do poeta, a partir do espólio que em depósito na Biblioteca Nacional (BN).

O dossier Pessoa-Crowley é constituído, na verdade, por "dois dossiers que deverão ter entre 800 e 900 páginas, dos quais 700 correspondem a manuscritos de Pessoa", segundo Pizarro, que levou a cabo a digitalização do espólio que pertence aos sobrinhos do poeta. Esses dossiers integram a correspondência, em inglês, de Pessoa e Crowley entre Dezembro de 1929 e 1931, de Pessoa e a editora de Crowley, a Mandrake Press, além da novela policial incompleta que o poeta escreveu baseada no suicídio encenado de Crowley na Boca do Inferno (cavidade rochosa batida pelo mar próxima de Cascais) em Setembro de 1930.

The Mouth of Hell, na descrição do americano Richard Zenith, organizador de várias edições de Pessoa na Assírio & Alvim, é a história de um detective inglês que vem a Portugal investigar o caso. O sobrinho do poeta, Miguel Roza, que é o actual proprietário dos papéis relativos ao caso Crowley e que chegou a considerar vendê-los em leilão na Christie"s nos anos 90, editou um volume em 2001, intitulado Encontro Magick, que compila esses documentos (em português) e que permite ter uma visão do que estará em causa no leilão de Outubro.

Pizarro diz ter alertado o director da Biblioteca Nacional, Jorge Couto, para a importância de comprar o espólio Pessoa-Crowley. "As pessoas que trabalham na edição crítica dão muito valor aos originais. Consideramos que tudo é fundamental, até ao último dos papéis. É trágico não estar junto do restante espólio. Estamos a falar de uma altura em que Pessoa escrevia cartas praticamente todos os dias. Se há um período da sua vida que conhecemos bem é esse, e se conhecemos bem é porque trocou correspondência com Crowley."

Em 1979, o Estado português adquiriu o espólio de Pessoa, mas Pizarro lembra que a família do poeta "nunca vendeu todos os livros nem todos os papéis". Segundo o investigador, a família detém 140 livros e revistas e "mais ou menos 2300 papéis", o equivalente a 10 por cento da biblioteca na Casa Fernando Pessoa e 10 por cento do que se encontra na BN. O suficiente, defende Pizarro, "para corrigir ou complementar metade do que já conhecemos".

Jorge Couto disse ao PÚBLICO que, "em questões de leilões, a BN nunca revela previamente interesse" porque "isso é uma forma de fazer disparar o mercado". E adianta que há dias um conjunto de manuscritos de Almeida Garrett atingiu "o valor inesperado" de 38 mil euros num leilão, que a BN não pôde igualar. Em Dezembro, a BN exerceu o direito de preferência e comprou por 30 mil euros o manuscrito do livro Indícios de Oiro e um conjunto de cadernos de Mário de Sá-Carneiro num leilão da P4 Photography.

Pizarro considera que o Estado português deveria fazer "um segundo arrolamento para ter a certeza de que os papéis fiquem em Portugal". O arrolamento é uma figura legal que prevê limites para o que os proprietários dos bens em causa podem fazer com eles, nomeadamente a venda para o estrangeiro. Foi este o recurso utilizado pelo Estado português em finais da década de 60, quando a família estaria a negociar a possibilidade de vender o espólio pessoano para o estrangeiro.

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Comentário + votado

Portugal nunca se há de concretizar...

Fico estupefacto quando vejo que o poder tem mesmo um efeito corrosivo. Será que quem ascende ao ...

André

20.06.2008 22:41

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