Nada fica de fora. Sócrates e as escutas, Manuela Ferreira Leite por falar em leite. A pedofilia. A fome no país e o tentar a sorte nas colónias. Do que gostam os católicos. Educação sexual forçada na terceira idade. Palavras como “singelo” e móveis antropomórficos. Maio de 68 que afinal é Maio de 78.
Beckett não é chamado ao barulho. Apesar do absurdo. Mas Agnès Varda, sim.
Há uma radiografia do país feita por Elvis Ramalho, Lello Minsk, Candidato Vieira e Orgasmo Carlos. Há uma biografia sumária do homem por detrás dos personagens, Manuel João.
O que é fazer uma entrevista a um heterónimo? É seguir o fio. E provocar. Jogar no escuro.
Responde sem hesitações. Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como seria suposto que respondesse o músico (“O papá catita era alguém muito severo”); ou o artista (“A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial, e irradiante”).
A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista.
Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira!
… O que interessa realmente nas entrevistas é, por um lado, identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita numa entrevista.
Um enunciado?
Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias.
Sérias porque ninguém fica defraudado?
Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.
Quem é que vamos começar por entrevistar para furar o enunciado?
Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que neste momento está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e tenho um cantor da canção portuguesa, que é o Elvis Ramalho. Podemos começar por um qualquer, é-me indiferente.
Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.
Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. E os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. (O Elvis Ramalho é um personagem super desinteressante) A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Ele é um artista rock e eu sou mais da canção.
Os irmãos disputam-se?
Já não o vejo há uns anos. Para mim o que é importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.
Narcisista, portanto.
Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.
Você, Elvis Ramalho?
Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado.


