Maior cadeia de livrarias do mundo entra em força na era do livro digital

22.07.2009 - 09:25 Por João Pedro Pereira
Não é uma estreia. Mas é um regresso em força depois de uma tentativa tímida e falhada no início da década. Ontem, e numa altura em que o sector dos e-books está agitado, a centenária livraria Barnes&Noble, cujo império se fundou nos tradicionais livros de papel, anunciou uma nova aposta no mercado dos livros electrónicos, que tem tido dificuldades em arrancar.
No site da livraria estão agora 700 mil e-books para serem descarregados (ainda significativamente menos do que os 1,2 milhões de livros impressos que estão disponíveis para compra online). Meio milhão dos e-books na Barnes&Noble são textos no domínio público e podem ser lidos gratuitamente - estão no site graças a uma parceria com a Google, que se tem empenhado em digitalizar todo o tipo de obras. Os restantes 200 mil livros electrónicos custam 9,99 dólares (sete euros), um valor que, para descontentamento dos editores, se tornou o padrão neste mercado, depois de ter sido adoptado pela poderosa livraria online Amazon.
Com esta reentrada no mundo dos livros digitais, a Barnes&Noble torna-se a maior livraria de e-books. A Amazon, que tem tentado impulsionar o sector através do leitor Kindle, tem para venda cerca de 330 mil títulos neste formato. E a Sony, que fabrica o Sony Reader, disponibiliza 600 mil e-books, boa parte dos quais também digitalizados pela Google.
A abordagem da Barnes&Noble é, porém, muito diferente da estratégia da Amazon. A livraria online vende e-books que só podem ser lidos no Kindle. Neste caso, pode-se comprar e descarregar e-books em 60 segundos em qualquer altura, graças a uma ligação sem fios (que só funciona nos EUA).
Já a Barnes&Noble permite que os seus livros sejam lidos em vários dispositivos, em vez de obrigar um leitor a comprar um aparelho específico. Os clientes desta livraria podem ler e-books no computador ou em smartphones, como o iPhone e o Blackberry - mas não o poderão fazer nem no Kindle, nem no Sony Reader. A empresa assinou já um acordo de exclusividade com a Plastic Logic, que tem agendado para o próximo ano o lançamento de um aparelho para concorrer com o leitor da Amazon.
O especialista David Rothman, director do site TeleRead.org, disse ontem ao PÚBLICO que ainda é "muito cedo" para se poder saber se a Barnes&Noble conseguirá fazer concorrência à Amazon. A entrada da empresa neste mercado é "muito significativa", diz. Mas a Amazon, uma nativa do meio digital, tem uma grande vantagem: "A enorme quantidade de críticas de livros feitas pelos próprios leitores no site" - estas são usadas pela Amazon num sistema sofisticado, que sugere a cada cliente livros de que este poderá gostar.
Um arranque lento
Os livros electrónicos têm sido alvo recente de grande atenção mediática. Mas já em finais da década de 1990 e no início deste século, enquanto não rebentava a bolha tecnológica, os e-books eram vistos entusiasticamente como o formato futuro do livro. A Barnes&Noble, que fechou em 2003 a sua primeira loja de livros electrónicos, não foi a única a ter um entusiasmo fora de tempo. A Time Warner, por exemplo, investiu, em 2000, milhões de dólares num projecto semelhante, que faliu rapidamente.
David Rothman nota que, apesar das dificuldades do arranque, o crescimento recente deste mercado "tem sido fenomenal". Mas admite que, em termos absolutos, "os números são ainda muito baixos". As vendas de e-books aumentaram sete por cento no ano passado nos EUA, o mercado pioneiro neste sector. Mas o relatório anual Book Consumer dá conta de que apenas 12 por cento dos compradores de livros lêem em formato electrónico.
Rothman dá três razões para a lenta evolução do mercado dos e-books. A primeira é tecnológica. Por um lado, "os leitores de e-books não são tão bons a reproduzir palavras como os leitores de MP3 a reproduzir música" e, por outro, os formatos de e-books ainda não são todos compatíveis: ler um livro num computador não é garantia de que se possa lê-lo no Kindle ou no iPhone.

