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Air

Love 2

08.10.2009 - 09:21 Por João Bonifácio, PÚBLICO, EMI

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Onze anos depois da estreia com "Moon Safari" ninguém espera revoluções dos Air - quando muito há uma vaga esperança de ver retornar aquela imponderável aliança entre reaccionarismo e invenção pop que dominava o primeiro disco. Porque é nisso que eles (só por vezes e nunca durante um disco inteiro) são extraordinários: na criação de papel de parede que emana ternura.

Foi, aliás, a recusa da superficialidade que tornou "10000 HZ", o segundo tomo, um disco falhado: se antes o talento de Dunckel e Godin se revelava na precisão dos detalhes escondidos sob mantos de melodias retro, nesse disco amaldiçoado por muitos fãs havia um nítido excesso de produção. Digamos que: o primeiro era disco de produtor apaixonado por canções, o segundo era disco de cientista, e "Talkie Walkie" (2004) e "Pocket Simphony" eram meios termos. "Love 2", não deixando de ser imaculadamente produzido, toma outros rumos: não tem um plano estético, uma cartilha a nivelá-lo, não procura desenhar canções, antes, movendo-se dentro do espectro limitado e dolente dos Air, vira à esquerda e à direita quando bem lhe apetece, sem obedecer a regras, a um som - ao ponto de as faixas de típica beleza-Air serem exactamente aquelas que pendem para o insosso, casos de "Love", "So light is her football", "Sing sang sung" e "African velvet". O oposto acontece quando os temas se abrem ao inesperado: aí, quando as canções têm várias partes, e em muito poucas ocorre algo vagamente semelhante a um refrão, os Air quase procedem a uma reinvenção - porque apesar de os arranjos recorrerem bastas vezes a instrumentos clássicos (além dos costumeiros órgãos laranja-tépido há metais, flautas, guitarras slide, pianos), parecem não desempenhar as funções que lhes são habituais ou surgirem quando menos se espera. Acaba por ser um disco de pequenas brincadeiras: na estranha "Missing the light of day" uma linha de piano percorre os órgãos vintage enquanto uma voz robotizada aparece e desaparece para dar lugar a um solo de harpa (?); na lindíssima "Tropical Disease" metais acompanham uma simples melodia à Satie em sobe e desce, antes de se entrar numa coda com inflexões jazzy; em "Heaven''s light" há um country-espacial, com melódica sob fundo de órgãos; em "Night hunter" procede-se a uma deliciosa desconstrução de ritmos afro-beat; enquanto o funk avariado de "Eat my beat", com cítara e pandeireta, tem contornos de declinação de Bollywood. Meio disco belo, meio disco inesperadamente amplo, exploratório e primorosamente melódico. Meia reinvenção, meio grande disco.



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