A paixão deles foi adúltera, escandalosa, atormentada, eterna. As suas vidas inauguraram a celebrity culture dos reality shows. Mas só agora Elizabeth Taylor revela as cartas que Richard Burton lhe escreveu: My blind eyes are desperately waiting for the sight of you.
Já tinha havido a sequência do banho de Cleópatra, que Richard Burton espreitara (a sua personagem, Marco António, não fazia parte da cena), mas Dick estava decidido a não se envolver com Miss Tits. Casado com Sybil, impressionava-o os milhões de Elizabeth Taylor, a comida que vinha directamente de Los Angeles para a Cineccità em Roma nesse ano de 1962 (chili do Chasen's, de que ela gostava), as tits - que traziam de volta ao filho do mineiro as fantasias de adolescência com as "galdérias" no seu País de Gales -, e por isso um affair, ele que era especialista em flirts sem consequências, até nem faria mal à sua carreira. Mas, galês que se prezava, não abandonaria a família.
Depois houve a cena do beijo, quando Marco António com a sua mini-túnica entrou nos aposentos da rainha do Egipto. Vários takes, e os beijos cada vez maiores na Cineccità...
Joseph L. Mankiewicz, realizador - Imprimam a cena (mas a cena continuou).
Joseph L. Mankiewicz - Vocês importam-se que eu diga "corte"?... (e a cena continuou).
Joseph L. Mankiewicz - Interessa-vos que já seja hora de almoço? E a cena acabou. Richard Burton pediu uma cerveja, Liz tirou a peruca. Mas tinha começado le scandale, e eles não saíam dos jornais e revistas - em Hollywood, na mesma altura, Marilyn Monroe mergulhava nua para dentro de uma piscina, na rodagem daquele que seria o seu filme incompleto, Something's got to Give, mas Marilyn não teve muito tempo de vida para tirar Liz Taylor das capas das revistas.
I list after your smell and your paps and your divine little money-box and your round belly and the exquisite softness of the inside of your tights and your baby-bottom and your giving lips & half hostile look in your eyes when you're deep in rut with your little Welsh stallion.
Burton, um furioso de Shakespeare e da língua inglesa (era o mínimo que nos devia, com a voz que tinha...), foi escrevendo com esta fogosidade à amante e depois mulher, a quem passou a chamar Ocean, My little Jewish tart (porque Liz se tinha convertido ao judaísmo no casamento com Eddie Fisher, que na altura de Cleópatra ainda era o marido) ou Dearest Scrupelshrumpilstilskin.
Foram estas cartas que tornaram possível Furious Love, depois de Liz Taylor as ter mostrado a um editor da “Vanity Fair”, Sam Kashner, e à biógrafa Nancy Schoenberger.
O resultado, publicado em Julho nos Estados Unidos, é algo que está entre a biografia de um romance concretizado em dois casamentos (um de uma década, outro de menos de um ano) e dois divórcios; pinta o retrato de uma era e de um perfil de estrela de cinema que teve nesses anos o seu canto de cisne - afinal, nos anos 60 começavam a surgir actores iguais aos espectadores e a dimensão bigger than life de Taylor Burton não era flor que se cheirasse na era hippie; e ensaia, até, a "tese" - embora não possamos chamar ensaio a este livro - do pioneirismo do casal Elizabeth Taylor/Richard Burton: eles foram um reality show. Brangelina? Não, LizandDick.
Voltando a esse ano, 1962, Cineccittà. Os paparazzi - já se chamavam assim, dois anos antes Federico Fellini filmara La Dolce Vita e dera o nome de Paparazzo a um fotógrafo, o que passou a designar, como dizer, uma ambição, uma atitude... - acamparam fora dos estúdios ou seguiam o casal Via Venetto abaixo e acima.
Richard era casado, com Sybil. Liz com Eddie Fisher, o homem que "roubara" à sua amiga Debbie Reynolds para se consolar do estado de viúva inconsolável devido à morte, num desastre de avião, do grande amor da sua vida, o produtor Mike Todd. Mas Eddie - e aqui entramos por um pedaço de psicologia sexual que Furious Love tacteia - já tinha sido domado, e Liz precisava de novas e maiores emoções. Burton era uma melhor versão de Mike Todd, era a sua alma gémea sexual. E havia o álcool.



