Em dois dias, aquele que foi considerado o leilão do século superou todas as expectativas. Só na primeira sessão atingiu 206 milhões de euros em vendas e ao segundo dia ultrapassou os 300 milhões fixados pela Christie’s para os três dias. Picasso foi a grande desilusão.
O Grand Palais de Paris recebe desde segunda-feira o leilão das cerca de 730 obras de arte que compõem a colecção pessoal do estilista Yves Saint Laurent e do seu companheiro Pierre Bergé. Parte dela tem sido adquirida por valores recorde.
Les coucous, tapi bleu et rose, natureza morta pintada em 1911 por Matisse, foi comprada na segunda-feira por 32 milhões de euros, superando os 18 milhões estimados e fixando assim um recorde na pintura francesa.
De Matisse foram ainda vendidas mais duas peças: Nu au bord de la mer, por 7,3 milhões de euros, e Le danceur, por 6 milhões.
A escultura Madame L.R. do romeno Constantin Brancusi conseguiu o segundo valor mais alto, 26 milhões de euros. Composition avec bleu jaune et noir, de Piet Mondrian, atingiu os 19,2 milhões, quase o dobro do que a Christie’s tinha previsto.
Também um obra de Marcel Duchamp estabeleceu um recorde. Um frasco de perfume com uma fotografia do alter-ego feminino do artista no rótulo foi leiloado por quase 8 milhões de euros, cinco vezes mais que o previsto.
Ontem, o valor mais elevado foi conseguido pela poltrona de couro, decorada com dois dragões, do artista Eileen Gray, avaliado entre 2 a 3 milhões de euros, mas leiloado por 21,9 milhões.
"O leilão foi extraordinário e ainda ganhei um Picasso"
O leilão da colecção pessoal de Yves Saint Laurant e de Pierre Bergé não sofreu os efeitos da crise. Pierre Loudmer, consultor de arte parisiense, admite que as avultadas quantias pagas pelas obras não o surpreendem. “Uma colecção de arte moderna com esta qualidade é rara”, disse Loudmer citado pelo site Bloomberg.
No entanto, a grande desilusão foi para o quadro Instrumentos de música sobre uma mesa, de Pablo Picasso. Esta pintura de 1914 tinha uma base de licitação de 25 milhões de euros, mas acabou por ser retirada sem ter ultrapassado os 21 milhões de licitação.
“Era demasiado clássico. Não é isso que se usa hoje em dia”, reconheceu Paolo Vedovi, director da Galeria Vedovi em Bruxelas.
Bergé, que vai doar a totalidade das vendas a causas como a investigação da SIDA, garante que não ficou desiludido com o fracasso do quadro de Picasso. “Não fiquei nem um pouco desapontado. O leilão foi extraordinário e ainda ganhei um Picasso”, ironizou.
As relíquias perdidas do jardim de Yuanmingyuan
Apesar do sucesso, houve o risco de duas peças poderem ficar fora do conjunto de obras a leiloar.
O Governo chinês quis proibir o leilão de duas esculturas de bronze, avaliadas em 10 milhões de euros cada uma, alegadamente roubadas do Palácio de Verão de Pequim pelas tropas francesas e britânicas, por volta de 1860.
Trata-se de uma cabeça de rato e uma cabeça de coelho, inspiradas no zodíaco chinês, que estavam originalmente no jardim imperial Yuanmingyuan.
Pierre Bergé chegou a considerar a hipótese de devolver as peças à China, sob a condição de o país “respeitar os direitos humanos e conceder a liberdade ao Tibete e o regresso do Dalai Lama”, conta o jornal britânico "The Independent". O Governo chinês considerou as afirmações “ridículas”.
No entanto, o Tribunal de Grande Instância de Paris indeferiu o pedido, uma vez que os detentores legais das peças seriam mesmo Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. O leilão termina hoje na capital francesa.



