"Mensagem" clonada

Lançamento de uma edição fac-similada marca 75 anos da "Mensagem" de Fernando Pessoa

01.12.2009 - 12:10 Por Luís Miguel Queirós

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A "Mensagem" foi o único livro de poesia que Fernando Pessoa publicou em vida A "Mensagem" foi o único livro de poesia que Fernando Pessoa publicou em vida ()
Há exactamente 75 anos, no dia 1 de Dezembro de 1934, a editora Parceria António Maria Pereira, de Lisboa, publicava o volume de poemas "Mensagem". O autor, Fernando Pessoa, tinha então 46 anos - morreria quase exactamente um ano depois, a 30 de Novembro de 1935 - e, em formato de livro, descontado um folheto, depois repudiado, no qual defendia uma ditadura militar para Portugal, editara apenas alguns opúsculos de poesia inglesa.

Para comemorar o 75º aniversário da "Mensagem", a Guimarães lança hoje um fac-símile do dactiloscrito que Pessoa entregou nas oficinas tipográficas da Editorial Império, onde o livro foi impresso. Luís Vilaça, da Guimarães, chama-lhe "edição clonada" para acentuar que o objectivo da editora foi criar um objecto virtualmente indistinguível do original hoje conservado na Biblioteca Nacional. Desde a encadernação em tecido que Pessoa mandou fazer do dactiloscrito até à qualidade do papel, tudo foi minuciosamente reproduzido. Tal como no original, a palavra Mensagem aparece redigida a lápis, na folha de rosto, sob o título Portugal (que Pessoa só abandonou no último momento), escrito à máquina e riscado por cima.

Destituída de qualquer aparato crítico, para não prejudicar a sensação de se ter na mão o próprio caderno de Pessoa, esta edição "clonada" inclui apenas, em letra minúscula, a menção de que se trata de um fac-símile. E se não reproduz exactamente o objecto que Pessoa levou à gráfica, é apenas porque o próprio dactiloscrito inclui, actualmente, algumas indicações manuscritas por terceiros após a morte do poeta. Numa folha de guarda, pode, por exemplo, ler-se: "Comprado a Antonio Fumaça em 1.10.65. Pertencia ao espólio do Sr. Armando de Figueiredo, da Editorial Império."

A edição, com uma tiragem de 2500 exemplares, e que só estará à venda nas lojas da Guimarães e nas Fnac, será hoje lançada na Biblioteca Nacional, pelas 17h30, numa sessão que incluirá uma palestra de Eduardo Lourenço, uma leitura de poemas da "Mensagem" pelo actor Luís Lucas e um debate com Lourenço, Manuel Alegre e Vasco Graça Moura, que irão discutir, sob a moderação de Carlos Vaz Marques, o tema Pessoa e o Sonho do Supra-Camões.

A conversa promete ser interessante. Se Alegre nunca fez parte da esquerda que torce o nariz à "Mensagem", já Graça Moura distingue-se, à direita, como um dos raros intelectuais que assume não apreciar por aí além a obra de Pessoa. Numa breve antecipação do que irá defender na sessão de hoje, disse ao P2 que tenciona sugerir que "o que está por trás da Mensagem é a Lusitânia do Mário Beirão", publicada em 1917. E recorda que Beirão foi justamente um dos jurados que deu à Mensagem o prémio que o livro recebeu do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN).

Graça Moura crê que a "Mensagem", com o seu "nacionalismo sebástico e místico", vem na continuidade do movimento saudosista, que o próprio Pessoa defendera nos célebres artigos que escreveu para a Águia. "É aquela coisa do "Portugal, hoje és nevoeiro", resume. E, para que não fiquem dúvidas, confirma: "Eu não gosto do Pessoa."

Não é nada provável que Eduardo Lourenço esteja de acordo. No seu caso, dizer que "gosta" de Pessoa seria uma trivialidade impertinente. Se Pessoa, tal como hoje o conhecemos, deve muito ao modo como o ensaísta o foi lendo, mais verdade ainda é que a obra do próprio Eduardo Lourenço seria algo de radicalmente diferente, se Pessoa não tivesse existido.

O autor de Pessoa Revisitado não quis adiantar o que hoje irá dizer, mas é provável que relembre, do muito que já escreveu sobre a Mensagem, essa observação fulcral que aponta para a inusitada ausência de Camões no panteão de heróis que Pessoa convoca e que inclui, por exemplo, o sapateiro-profeta Bandarra ou o padre António Vieira. Esta omissão obviamente deliberada serve de chave simbólica a Lourenço para ler a "Mensagem" como "o túmulo onde Os Lusíadas serão sepultados para que sobre a sua morte (e transfiguração) se abra o caminho para aquela Índia que não vem no mapa".

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Se fosse vivo hoje...

Se fosse vivo hoje, Pessoa voltaria a defender uma ditadura militar para Portugal, já que os ...

A. Silva

01.12.2009 12:36

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