Karl Malden foi um dos mais dignos representantes da categoria a que nos habituámos a chamar “actores de composição” mas que, para a maior parte dos seus integrantes, se resume a serem “working actors”. Actores para quem o tamanho do papel ou do nome no cartaz não tem tanta importância como fazer um bom trabalho — e que, como quem não quer a coisa, vão alinhando uma invejável carteira de filmes.
A filmografia de Malden, falecido na quarta-feira aos 97 anos de idade na sua casa de Los Angeles e vencedor do Oscar de melhor actor secundário em 1952, alinha nomes como Elia Kazan, Alfred Hitchcock, Henry Hathaway ou John Ford, e clássicos como “Um Eléctrico Chamado Desejo”, “Há Lodo no Cais”, “Confesso” ou “Patton”, bem como uma das mais populares séries de televisão da década de 1970, “As Ruas de São Francisco”.
Com o seu rosto de boxeur e a sua aparência de homem marcado pela vida, Malden, filho de emigrantes de Leste, fez parte de uma geração de actores formados no teatro que subiu à proeminência após a II Guerra Mundial, e se afastava do arquétipo tradicional da vedeta masculina. O teatro foi uma vocação descoberta aos 22 anos, levando a uma longa série de papéis secundários na Broadway a partir de 1937, interrompidos pelo seu serviço no Exército americano na II Guerra Mundial. Teve aulas no célebre Actors Studio, embora, ao contrário de Marlon Brando (um bom amigo com quem contracenaria várias vezes, inclusive no único filme dirigido por Brando, “Cinco Anos Depois”), não se considerasse parte do grupo de actores que revolucionaram o teatro e o cinema americano nos anos 1950 com os ensinamentos daquela escola de representação. A sua amizade com o encenador Elia Kazan levá-lo-ia aos seus primeiros grandes sucessos em palco, nas produções dirigidas por Kazan de “A Sombra do Passado”, de Arthur Miller, e “Um Eléctrico Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, em finais dos anos 1940.
Kazan reteve Malden para o filme de “Um Eléctrico Chamado Desejo” (1951), valendo-lhe o Oscar de melhor secundário e relançando uma carreira no cinema que até aí se limitara a meia dúzia de pequenos papéis em filmes de segunda linha. Depois do Oscar, Hollywood propôs-lhe papéis mais substanciais: “A Fúria do Desejo” (King Vidor, 1952), “Confesso” (Alfred Hitchcock, 1953), “Como se Fazem Heróis” (Richard Brooks, 1953). Mas seria preciso Kazan, entretanto caído em desgraça pela sua denúncia de colegas “comunistas” na “caça às bruxas” do senador McCarthy, para Malden ser de novo nomeado para o Oscar por “Há Lodo no Cais” (1954). Ambos voltariam a rodar juntos – no igualmente controverso “Baby Doll”/”A Voz do Desejo” — em 1956, e o actor, que foi presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas entre 1989 e 1991, foi um dos motores por trás da polémica atribuição do Oscar honorário ao realizador em 1999.
Em finais dos anos 1950, Malden mudou-se para Los Angeles para se dedicar a tempo inteiro ao cinema. Desse período datam “O Prisioneiro de Alcatraz” (John Frankenheimer, 1962), “A Conquista do Oeste” (John Ford, Henry Hathaway e George Marshall, 1962), “O Último Combate” (Ford, 1964) ou “O Aventureiro de Cincinnati” (Norman Jewison, 1965). Mas, após “Patton” (Franklin J. Schaffner, 1970) e “Vagabundos Selvagens” (Blake Edwards, 1971), confrontado com a falta de oportunidades em Hollywood para actores mais velhos, Malden aceitou, relutantemente, o convite para o papel principal de uma nova série policial. “As Ruas de São Francisco” tornou-se num sucesso de audiência, lançando a carreira de Michael Douglas, prolongando-se por cinco temporadas e fazendo de Malden presença regular em telefilmes.
Apesar de uma participação especial num dos primeiros episódios da série “Os Homens do Presidente”, em 2000, Malden encontrava-se retirado desde 1993, ano em que teve o seu último papel na televisão (no cinema, não filmava desde “Louca”, de Martin Ritt, em 1987).
Karl Malden nasceu Mladen George Sekulovich em Chicago a 22 de Março de 1912, filho de pai sérvio e mãe checa emigrados para os EUA, e faleceu de causas naturais a 1 de Julho de 2009 na sua casa de Los Angeles. Deixa a sua esposa Mona, com quem era casado desde 1938 num dos mais longos casamentos conhecidos em Hollywood, bem como duas filhas, três netas e quatro bisnetos.



