É inevitável começar o texto pelo Zelig de Woody Allen, o camaleão humano que o realizador de "Bananas" encarnou em 1983. É inevitável quando esse é o nome da banda e quando a música da banda se revela tão intimamente ligada ao seu baptismo.
Diríamos então que "Joyce Alive", a estreia do grupo que reúne Peixe, António Serginho, Nico Tricot, Eduardo Silva e Zé Marrucho, boa gente com bom currículo (Ornatos Violeta, Pluto, Foge Foge Bandido), é um cocktail de mil proveniências, abanado com rigor para que dali saia um concentrado, de teor alcoólico recomendável, onde reconhecemos pedaços de sci-fi de colorido vintage, experimentalismo rock correndo à velocidade dos Lounge Lizards, os desenhos animados a que a música de Carl Stalling dava vida frenética, e imagens sacadas a sonhos com paisagens marroquinas ou a férias imaginárias na Califórnia onde o surf-rock, aqui há (muito) atrasado, era rei. Mas se Zelig é o nome da banda, que lhe seja feita justiça. Não são verdadeiramente um cocktail onde todos aqueles elementos se diluem num novo corpo. São, mais do que isso, a capacidade de ser tudo para toda a gente e cada coisa em determinado momento. O que poderia naturalmente resultar em aborrecidíssima tragédia (o típico "não é carne nem peixe"), não se desse o caso de, apesar de aqui e ali caírem na tentação de serem "músicos para músicos" (demasiado tricotados, demasiado "pensados"), haver nesta música um prazer genuíno na descoberta e um gosto evidente na transformação em cada uma das muitas coisas que decidem ser: lounge retemperador com flauta e vibrafone, logo depois correria endiabrada, e depois disso explosão sónica e sonoplastia de uma performance dadaísta que não vemos (mas conseguimos visualizar na perfeição).



