Num dos muitos textos que escreveu para transmitir a paixão - por Rosselini, Mozart, Marlene, Marilyn, a Arrábida, Florença, Ticiano ou Proust -, João Bénard da Costa descreve Gary Cooper como o "homem com qualidades".
Mas talvez nenhuma outra expressão descreva melhor o próprio Bénard.
Antítese do homem indistinto, amoral e neutro, João Bénard da Costa foi, ao longo do último meio século, um homem de qualidades transbordantes, com a paixão dos que querem converter os outros.
Nascido num meio burguês católico, confortável e conservador, soube cedo que lado era o seu: o da oposição não comunista a Salazar. Mas ser convictamente não comunista não o impediu de lembrar o comunista Mário Dionísio como um primeiro mestre, nem de nos anos 60 ter ido a uma reunião clandestina na Borgonha para ouvir Álvaro Cunhal, arriscando a pele.
De resto - antes de O Tempo e o Modo, da secção de cinema da Gulbenkian e da direcção da Cinemateca Portuguesa terem feito dele uma referência vital para sucessivas gerações -, deu aulas no liceu, porque a ditadura o vetou para assistente da faculdade.
Em John Ford há "essas mortes serenas, essas mortes de homens que acreditavam totalmente na vida, no homem e em Deus", disse João Bénard da Costa em 1991, quando morreu Luís de Pina, então director da Cinemateca.
Como também ele, Bénard, acreditava "totalmente na vida, no homem e em Deus", vê-se no que fez, no que isso fez aos outros, e em tudo o que escreveu num português vintage de frase lançada, tão sumptuosa como ágil e cantabile.
Foi uma das qualidades melhor praticadas por este renascentista do século XX, a língua.
Se tivesse que viver uma vida além da sua, escolheria a de Federico de Montefeltro, senhor de Urbino e príncipe das humanidades, retratado de perfil e em carmim por Piero della Francesca.
Férias grandes
"Somos crianças feitas para grandes férias", escreveu Ruy Belo, que Bénard citava até quando parecia não dar por isso.
Nascido a 7 de Fevereiro de 1935 em Lisboa, João Pedro Bénard da Costa cresceu entre a casa lisboeta da Avenida António Augusto de Aguiar - que era o Inverno - e a casa que o seu avô paterno mandara construir para um filho tuberculoso, a Vila Raul, na Arrábida - que era o Verão.
Numa das suas crónicas "em busca do tempo perdido", conta Bénard: "A Arrábida aconteceu antes de eu acontecer. Não me lembro de mim sem me lembrar dela e vice-versa." Estava na história da família: "Meus tetravós tiveram irmãos que foram guardiãos do convento. Bisavós desciam do Barreiro, onde viviam, para lá passear, avós e pais passaram lá a lua-de-mel, quando, até fins dos anos 40, nenhuma estrada dava acesso à serra, só atingível a pé, de burro ou mula, ou, por mar."
E lá dentro eram matas de medronheiros, urzes e carvalhos, que ele se lembra de enfrentar, levado ao colo, na retirada das férias.
Quando o avô fizera a casa, só havia mais sete na serra e dez no Portinho, e durante a infância de Bénard pouco mudou. "Puxadas as redes, à noite, os pescadores vinham vender salmonetes e linguados vivos." Dos Casais chegavam as mulheres "com os figos ainda molhados", maçãs reinetas, correio, jornal e o pão fresco "com que no dia seguinte se faziam as melhores torradas do mundo". Havia "a guerra no mundo e a descalma suave na Arrábida".
E "não havia luz eléctrica (não a houve até aos anos 80), não havia água canalizada (não a houve até ao ano 2000)". Parecia ser essa a forma de estar na Arrábida: "Alumiávamo-nos a petróleo e a estearina, bebíamos água das cisternas."
Isto, a 40 quilómetros de Lisboa. "O melhor peixe do mundo, as lapas profundas e escuras, na serra e no mar, capelas e fontes, atalhos infindáveis, caminhos de cabras e de raros conhecedores." O tempo passava como se "nada de mal" lhes pudesse acontecer, a ele e aos próximos, "todos seguros da amizade dos rochedos e das matas, das ermidas e dos túmulos jacentes".


