A romancista inglesa Jane Austen (1775-1817), autora de livros como “Sensibilidade e Bom Senso” ou “Orgulho e Preconceito”, dos quais não será excessivo afirmar que inventaram o romance moderno, pode ter sido envenenada com arsénico.
A tese é defendida pela escritora de novelas policiais Lindsay Ashford, que admite que o veneno lhe possa ter sido prescrito por (más) razões médicas, mas que não descarta a hipótese de homicídio.
Austen viveu uma existência relativamente pacata na Inglaterra rural e nunca deu sinais de possuir uma saúde frágil. Os primeiros sintomas de doença surgiram em 1816, mas a escritora ignorou-as e continuou a trabalhar.
Em Janeiro do ano seguinte ainda começou a escrever um novo romance, mas a sua saúde deteriorava-se a olhos vistos. Em Abril, já não saía da cama. Em Maio, foi levada por familiares a Winchester, para receber tratamento médico adequado, mas nunca chegou a recuperar e acabou por morrer naquela cidade, no dia 18 de Julho de 1817. Tinha apenas 41 anos.
Só em meados do século XX é que começaram a surgir as primeiras tentativas de identificação retrospectiva da doença que a terá vitimado. Durante anos, a tese mais consensual foi a de que teria morrido da doença de Addison, uma rara patologia endocrinológica, mas foram adiantadas outras hipóteses, como o linfoma de Hodgkin, um cancro do sistema linfático, ou, mais recentemente, a tuberculose bovina, que teria contraído ao beber leite contaminado.
Em 2010, uma académica norte-americana, Linda Robinson Walker, especialista na obra de Austen, sugeriu, baseada no facto de a romancista ter apanhado o tifo em criança, que esta poderia, afinal, ter morrido da doença de Brill-Zinsser, uma infecção susceptível de se manifestar em pessoas que tiveram tifo.
Lindsay Ashford, uma bem-sucedida escritora britânica de romances policiais, veio agora acrescentar à lista uma nova teoria, tão difícil de demonstrar como as anteriores, mas seguramente mais inquietante. Jane Austen, defende, teria morrido em consequência da ingestão prolongada de arsénico.
Os passos que levaram Ashford a esta conclusão começaram, de forma bastante inocente, em 2008, quando o seu companheiro arranjou um emprego em Chawton House, uma bela mansão rural na região de Hampshire que pertenceu a um irmão de Jane Austen, Edward. Quando o pai de Jane morreu, a romancista, a sua irmã Cassandra e a sua mãe foram viver, em 1809, para um pequeno solar que Edward possuía no parque da sua propriedade. Foi justamente esta casa, hoje na posse de um descendente dos Austen, que Ashford alugou.
O seu projecto inicial era apenas o de escrever mais um policial, eventualmente protagonizado pela sua heroína habitual, a psicóloga Megan Rhys. Mas não é impunemente que se vai habitar a casa onde morou e trabalhou Jane Austen, essa romancista ao pé da qual – diz um verso de W. H. Auden –, James Joyce é tão inocente com um talo de erva.
Ashford começou a frequentar a biblioteca de Chawton House e rapidamente deu por si embrenhada na leitura dos papéis de Jane Austen, e já esquecida do romance policial que pretendia escrever, e que acabaria por substituir por uma primeira incursão no romance histórico: “The Mysterious Death of Miss Austen”, lançado há poucas semanas em Londres.
Uma manhã, quando lia um dos volumes da correspondência da escritora, Ashford deparou-se com uma carta que esta escrevera, poucos meses antes de morrer, à sua sobrinha Fanny Knight, explicando que se sentia melhor e que estava a recuperar o seu aspecto habitual. Parecendo referir-se ao seu rosto – usa a expressão my looks –, a romancista acrescenta que tivera a pele manchada de “negro, branco e de todas as cores erradas”.
Ashford, que tem formação académica em criminologia e que estudou técnicas forenses e características de diversos venenos para escrever os seus livros policiais, pensou imediatamente que os sintomas descritos na carta eram compatíveis com envenenamento por arsénico, que pode provocar o aparecimento simultâneo de manchas brancas, pretas e castanhas.



