Isabel Carlos: O Centro de Arte Moderna é uma Bela Adormecida que tem de ser acordada

28.11.2009 - 13:46 Por Vanessa Rato
É a única mulher, neste momento, em Portugal, à frente de uma instituição museológica de primeira visibilidade. Isabel Carlos é a nova directora do emblemático Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. "Era o único sítio, em Portugal, que aceitava dirigir. Só tenho de estar feliz por estar aqui."
Entre 1996 e 2001 foi membro da direcção do hoje desaparecido Instituto de Arte Contemporânea. Comissária da representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2005 e responsável artística de bienais como Sydney (2004) e Sharjah (2009), Isabel Carlos, 48 anos, está agora à frente do emblemático Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (CAM). É o espaço onde, como tantos portugueses, teve o seu primeiro contacto com arte contemporânea. Um espaço que faz 30 anos em 2013 e que, sob sua direcção, nos próximos cinco anos assumirá como desafio voltar a encontrar "um lugar próprio".
Há um dado fundamental em relação ao CAM: ter sido durante muito tempo a grande referência da arte contemporânea em Portugal e, nos últimos anos, parecer ter perdido não só esse lugar como a capacidade de se reposicionar face a um contexto em transformação cada vez maior a partir de meados da década de 1990, nomeadamente com o aparecimento de outras instituições - Serralves, o Centro Cultural de Belém...
Concordo com o diagnóstico.
E agora?
O CAM faz 30 anos em 2013. Deve ter a noção desta herança, de ter sido a primeira instituição a lidar com arte moderna e contemporânea, nomeadamente arte moderna e contemporânea portuguesa, [área de actuação] onde foi de facto fundamental. Encontrar um lugar próprio, em que as pessoas sintam que há uma identidade é um dos desafios para os próximos anos. Para mim, a identidade CAM, o seu ADN, tem duas ou três linhas muito claras. Uma liga-se ao facto de ser uma casa onde a maior parte dos artistas portugueses fizeram a sua primeira antológica ou retrospectiva, [assumindo-se], portanto, [como] um lugar que não é só de exposições, mas que faz catálogos, investigação, trabalho mais invisível mas importante. É uma das linhas que acho que deve continuar a desenvolver.
Esse não é um lugar, hoje, de certa forma ocupado pela Culturgest, o braço operativo da Caixa Geral de depósitos na cultura?
A Culturgest tem feito esse trabalho sobretudo com artistas da década de 1980 e 1990, mas há artistas para trás que nunca foram trabalhados como deve ser, de quem nunca se produziu uma exposição ou um catálogo com investigação e reflexão. Estou a pensar, por exemplo, no Escada, a quem quero dedicar uma retrospectiva nos próximos anos, ou na Ana Vieira, que vamos fazer em 2011 em cooperação com o museu [Carlos Machado] de Ponta Delgada.
O CAM não é como Serralves, que situou a sua colecção em circa de 1968. A colecção do CAM começa em 1910, tem arte moderna. É uma especificidade a cumprir de modo mais sistemático. Em 2012: Josef Albers, importantíssimo como referência para imensos artistas portugueses mas nunca mostrado em Portugal. E outros nomes de que os professores de Belas-Artes falam aos seus alunos ano após ano, mas que nunca se viram.

