Não é uma questão nuclear, mas é mais um episódio na tensão Irão-Reino Unido: o Irão entrou em conflito com o Museu Britânico por causa do Cilindro de Ciro, tido como a primeira declaração de direitos humanos de que há registo histórico.
O Museu Britânico deveria ter cedido o artefacto ao Irão no domingo, mas adiou pela segunda vez o empréstimo da peça. As relações estão agora cortadas e a Organização para a Preservação do Património Cultural e Promoção do Turismo (OPPCPT) iraniana vai enviar uma carta de protesto à UNESCO e pressionar outros museus a cessar as suas relações com o Museu Britânico.
O Cilindro de Ciro, feito em barro, tem inscrito em escrita cuneiforme um registo das conquistas do rei Ciro, o Grande (559-530 a.C.), e um código de tipo legal em que o monarca autoriza os povos exilados na Babilónia, nomeadamente os judeus, a regressar às suas terras. Está desde Setembro em vias de chegar ao Irão, para uma exposição - mas o Museu Britânico tem adiado sucessivamente a entrega.
O motivo apresentado para o adiamento é, segundo a instituição britânica, a necessidade de manter a peça sob investigação depois de terem sido feitas descobertas que podem levar à descodificação do texto em falta no Cilindro. Mas as agências de notícias associam a decisão à instabilidade política que se vive no Irão desde a denúncia de fraude nas presidenciais de Junho de 2009. A instituição britânica diz estar surpreendida com a reacção de Teerão e garante que está a agir de boa-fé.
Politização da cultura
O director da OPPCPT, organismo governamental, recusa que o Cilindro de Ciro esteja ameaçado pela agitação no Irão e que os adiamentos sucessivos tenham alguma justificação. O Museu Britânico "politizou um assunto puramente cultural", disse Hamid Baqaei à televisão estatal iraniana Press TV, citado pelas agências de notícias. Hamid Baqaei explica ainda que a sua instituição e Teerão cortaram relações com o Museu Britânico por este se ter transformado "numa organização política".
O corte de relações significa que não haverá novos projectos, continua Hamid Baqaei, nem prosseguirão outros que estejam em curso, que liguem as duas instituições - exposições, missões arqueológicas, investigação. "Temos a certeza de que o museu, e em particular o seu Centro de Estudos do Médio Oriente, sofrerá uma perda considerável com o fim desta colaboração", remata o responsável iraniano. O Museu Britânico diz que espera que o assunto se resolva rapidamente.


