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Saramago morreu hoje aos 87 anos

Igreja enaltece “grande criador da língua portuguesa” mas lamenta “balizamentos ideológicos”

18.06.2010 - 17:45 Por António Marujo

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A temática religiosa está presente na obra de Saramago A temática religiosa está presente na obra de Saramago (Paulo Ricca)
O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Igreja Católica, divulgou esta tarde um comunicado no qual manifesta “o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura”.

Ao mesmo tempo, o texto refere que “o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária” e que nessa “exigência e beleza” há uma “aproximação” que o SNPC sublinha. Mas o secretariado católico lamenta “que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos”.

Na apresentação do seu último livro, “Caim”, José Saramago afirmara que a Bíblia “tem coisas admiráveis do ponto de vista literário” e “muita coisa que vale a pena ler” . O escritor referiu concretamente o livro dos Salmos, com páginas “belíssimas”, o Cântico dos Cânticos, ou a parábola do semeador contada por Jesus; e admitiu que muitos dos valores que tinha interiorizados são “valores cristãos”. Dias antes, também a propósito de “Caim”, Saramago afirmara que a Bíblia era um “manual de maus costumes”.

Num DVD gravado pelo maestro e músico catalão Jordi Savall, em que é tocada a peça de Joseph Haydn “As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz”, Saramago faz comentários a cada um dos capítulos, em que coloca várias questões de índole pessoal sobre a existência de Deus.

Na apresentação de “Caim”, comparando a sua obra e a Bíblia, Saramago acrescentava: “A Bíblia é um livro sagrado e, que eu saiba, nenhum dos meus romances é sagrado. A Bíblia tem coisas admiráveis do ponto de vista literário.”. Entre elas, estavam os Salmos, o Cântico dos Cânticos, o Pentateuco e o Novo Testamento.

Saramago confessava ainda sentir-se espicaçado pela Bíblia, cujo texto integra o seu património cultural, ao contrário do Alcorão, que não irá merecer a sua atenção literária. A temática religiosa está presente na obra de Saramago, nomeadamente em títulos como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, In Nomine Dei ou A Segunda Vida de Francisco de Assis.

No documento do SNPC, divulgado esta tarde, a estrutura da Igreja Católica acrescenta que José Saramago “ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres”.

“Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença”, conclui o texto.

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