Entrevista

Hitler: o ditador era um leitor fanático

01.03.2011 - 15:30 Por Maria João Guimarães

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Timothy Ryback, autor de A Biblioteca Privada de Hitler Timothy Ryback, autor de A Biblioteca Privada de Hitler (Foto: Daniel Rocha)
Em A Biblioteca Privada de Hitler, o autor norte-americano mostra-nos Adolf Hitler sentado numa cadeira de braços, com um livro e uma chávena de chá.

Adolf Hitler dizia ler um livro por noite e, quando morreu, a sua biblioteca tinha mais de 16 mil livros.

Mas o ditador alemão colocava no mesmo plano westerns populares e tratados militares; misturava filosofia séria e panfletos anti-semitas, diz Timothy Ryback, autor de A Biblioteca Privada de Hitler (editado no original em inglês pela primeira vez em 2008, e agora publicado em Portugal pela Civilização).

Ryback, jornalista freelance que escreveu para o diário New York Times ou a revista New Yorker, académico que ensinou História na Universidade de Harvard, e escritor, autor ainda de um livro sobre o campo de concentração de Dauchau, lançou-se no estudo dos livros do ditador. Escrutinou os 1200 livros que sobraram e que estão na Biblioteca do Congresso, em Washington (que tem a maior parte da colecção), e na Universidade Brown, em Providence, à procura de dedicatórias, sublinhados, notas. O P2 falou com o autor em Lisboa.

Costumamos pensar na literatura como algo que tem o poder de abrir horizontes e de nos tornar, de alguma maneira, pessoas melhores. Este livro pode ser deprimente para quem pense assim?

Sim, o livro deixa-nos de facto a pensar nisso. A civilização ocidental está assente na noção de que a leitura, a educação, a literatura, nos dão mais conhecimento e fazem do mundo um sítio melhor. E com Adolf Hitler acontece exactamente o contrário. Este homem usou a literatura, usou a história, usou a filosofia para inspirar algumas das mais horríveis acções já cometidas por seres humanos. Mas suspeito que Hitler não era a única pessoa má com uma biblioteca.

Estaline, por exemplo, tinha também uma grande biblioteca. Como é possível ver a influência dos livros nos líderes? No caso de Hitler, as leituras parecem ter servido mais para confirmar as suas ideias, e terem sido menos uma força que o moldou, como afirma no livro?

Há ambas, validação e influência. Acho que houve três tipos de livros na vida de Hitler. No início, alguns livros ajudaram a moldar a sua pessoa. Ele adorava livros de aventuras, como As Viagens de Gulliver ou Robinson Crusoe. Outros influenciaram a sua ideologia, como um livro de Madison Grant, The Passing of the Great Race, cuja influência se vê em discursos posteriores. A terceira categoria são os livros que Hitler explorava para os seus próprios objectivos. Nietzsche e Schopenhauer, por exemplo, são associados a Hitler. Não creio que ele tenha tido a capacidade intelectual para os ler e perceber. Mas pegava em frases e ideias, escolhendo as que lhe convinham, para alimentar a sua ideologia. Fazia o mesmo com a Bília: os discursos de Hitler estão cheios de alusões religiosas. Ele explorava estas obras e escolhia os pedaços que lhe convinham.

Hitler fazia anotações a lápis, na maioria sublinhados, nos livros. O que se pode depreender do seu estilo de anotações?

Consegue-se ver um padrão do modo como ele lia, sublinhando frases e decidindo ignorar partes. Em Mein Kampf [a autobiografia e manifesto político de Hitler] ele dedica uma secção à arte de ler, dizendo que quando as pessoas lêem muitos livros isso deixa a sua mente numa confusão. Ele lia com uma noção pré-concebida e tirava dos livros o que servia para a alimentar. Isto não é aprender, é pilhar e explorar.

Hitler só estudou até aos 15 anos. Esta necessidade de ler era uma compensação para a sua falta de formação académica?

Sim. Hitler foi um leitor fanático toda a vida, e por trás deste apetite voraz havia uma incrível insegurança intelectual. Mas não tinha capacidade crítica para distinguir entre filosofia séria e tratados tendenciosos, anti-semitas. Tratava tudo como tendo valor igual. Dizia-se que durante a I Guerra Mundial Hitler levava as obras completas de Schopenhauer para a frente. Duvido: são 2800 páginas, e ele nem sabia escrever correctamente o nome de Shopenhauer [colocava um "p" a mais].

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Hitler

Para além de um leitor de livros, Hitler era anti-fumador, anti-alcool, anti-caça, tendo uma ...

sueco1984

01.03.2011 16:32

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