Afinal, o Museu Hermitage de São Petersburgo não está interessado em ter um pólo permanente de exposição em Lisboa, disse anteontem ao PÚBLICO o director da emblemática instituição russa, Mikhail Piotrovski. Depois de um investimento nacional de mais de 1,5 milhões de euros, no ano passado, na exposição-teste para o lançamento desse pólo, com inauguração prevista para 2010, Piotrovski, que está à frente do Hermitage desde 1992, faz um balanço negativo da colaboração com Portugal.
"Percebemos que Portugal não tem dinheiro para este tipo de exposição", disse Piotrovski em breve conversa telefónica, sublinhando ainda: "Tivemos problemas de organização que nunca nos aconteceram neste tipo de exposição".
Escusando-se a entrar em pormenores, o director do Hermitage diz apenas que houve "demasiadas discussões" e "dinheiro que não chegava", "questões que normalmente correm sem percalços". Diz, por outro lado, que essa exposição - De Pedro, o Grande a Nicolau II: Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage, que esteve na Galeria D. Luís I do Palácio Nacional da Ajuda entre Outubro de 2007 e Fevereiro deste ano, com 600 obras da dinastia Romanov - "foi uma das melhores que o Hermitage já fez na Europa", mas que se viu ofuscada por questões extra-artísticas e foi maltratada, nomeadamente, pela imprensa.
"Sentimos que havia demasiados jogos políticos. Nós não temos nada a ver com isso, mas sentimos que não somos realmente desejados [em Portugal]."
As declarações de Mikhail Piotrovski surgem na sequência de uma intervenção do actual ministro da Cultura português, José António Pinto Ribeiro, que, há um mês, anunciou na Assembleia da República o cancelamento da segunda exposição do Hermitage prevista para Portugal.
Aposta polémica
Segundo o protocolo de intenções assinado em 2006, no que foi uma das mais polémicas iniciativas do Ministério da Cultura da agora deputada do PS Isabel Pires de Lima, a exposição-teste do Hermitage, inaugurada pelo Presidente português, Aníbal Cavaco Silva, e pelo Presidente russo Vladimir Putin, durante a presidência portuguesa da União Europeia, deveria ser a primeira de três mostras. À exposição-teste deveria seguir-se uma outra no Museu Soares dos Reis, no Porto, já este ano, e um regresso a Lisboa, em espaço a agendar, em 2009. Depois disso, previam-se estar criadas condições para a instalação de um pólo permanente do museu em Portugal, talvez na própria Galeria D. Luís I, na Ajuda, que sofreu obras de requalificação no valor de 850 mil euros.
Perante o anúncio destas intenções, e apesar do aval superior e dos 105 mil visitantes que a exposição-
-teste faria em apenas quatro meses, Isabel Pires de Lima viu-se a braços com uma das decisões mais polémicas do seu mandato, acusada de deixar moribunda a maioria dos museus da rede nacional para embarcar em estratégias de fogo-de-artifício, no que se considerou ser pouco mais que um custoso fait-divers de programação cultural. Sobretudo tendo em conta a experiência de Londres, onde um projecto semelhante, mas de iniciativa privada - o Hermitage Rooms -, teve 197 mil visitantes na primeira exposição, em 2000, e menos de 14 mil na última, precisamente em 2007, quando acabou por fechar.
Mas, há um mês, quando anunciou o cancelamento da exposição do Soares dos Reis, o novo ministro da Cultura, empossado em Fevereiro, não assumiu uma inflexão ou correcção de política. Apesar de, nos últimos meses, ter tomado várias decisões que anulam estratégias da sua antecessora, nomeadamente na reestruturação do modelo de financiamento do Estado às artes, Pinto Ribeiro disse apenas que a decisão de cancelamento da exposição era russa. "Isso não é verdade", nega Mikhail Piotrovski, que diz que foi Portugal quem nunca avançou para lá do protocolo de 2006.
"Normalmente cumprimos os nossos acordos. Se o Governo português quiser, fazemos a exposição. Estamos prontos. Mas, para fazer uma exposição, é preciso mais do que dizer coisas. Há procedimentos a tomar. [Neste momento] temos apenas um acordo geral. São precisos acordos específicos", diz o director do Hermitage.
MC afasta culpas


