Hoje, 14 de Abril, faz 250 anos que morreu um dos grandes compositores do barroco. Sem ter a complexidade estrutural de Bach, Handel supera-o no calor das suas melodias e coros. "Comfort music" no seu melhor, como a descreveu alguém…
Hoje em dia é difícil imaginar que alguém interessado em música barroca renuncie a ouvir uma boa interpretação de uma oratória de Handel. No entanto, ao longo de décadas – durante a maior parte do século XX – a música religiosa de Handel era considerada forma segura de esvaziar uma sala. Quem dizia os oratórios dizia as óperas. Um estilo interpretativo herdado da época romântica, com orquestras e coros muito grandes e frases musicais ponderosas, tornava difícil resistir a obras já de si extensas, onde a alternância de árias e recitativos parecia continuar até ao infinito. E o lado frequentemente moralista dos temas também não ajudava.
O movimento da música antiga, com os seus esforços para regressar ao espírito original de épocas como o barroco, permitiu começar a devolver às obras musicais a leveza, o colorido e o calor de que há muito estavam afastadas. Também foi decisivo o advento de novas gerações de cantores, em especial com um brilhante panteão de contra-tenores que dispensam a necessidade de entregar a baixos ou a barítonos certos papéis originalmente escritos para registos mais agudos (os intérpretes originais eram castrati, mas essa possibilidade hoje em dia já não se encontra em aberto). Um melómano hoje em dia pode sentir o mesmo prazer intenso ouvindo, digamos, uma ópera «mágica» como Alcina ou uma composição de tema bíblico como Saul. E quem começa a entrar nesse mundo depressa se apercebe não apenas da abundância melódica, como do modo como muitas das melodias handelianas se infiltraram na nossa consciência musical mesmo sem darmos por isso. Todos conhecemos, mesmo que não o saibamos, a ária «ombra mai fu» (ver selecção em baixo). Todos conhecemos inúmeras passagens do Messias. Mesmo quando a memória não é literal, a poética peculiar de Handel contagiou os seus sucessores, o que significa a história da música.
Handel é um exemplo brilhante e relativamente pioneiro de cosmopolitanismo europeu. Alemão, filho de um cirurgião-barbeiro, nasceu na cidade de Halle em 1685, o mesmo ano de Bach e Scarlatti. O pai destinara-o ao direito, mas ele preferia a música. Após várias peripécias, conseguiu tornar-se organista na catedral. Seguiu depois para Hamburgo, onde foi cravista e violinista no teatro, e daí para Itália, onde produziu as suas primeiras óperas e oratórios maduros. Em 1710 entrou ao serviço de George, príncipe-eleitor de Hanover, que se tornaria o rei George I da Grã-Bretanha. Handel precedeu-o nesse país, onde se instalou definitivamente em 1712. Segundo uma lenda pouco fiável, teria composto as suites instrumentais da Water Music, uma das suas obras mais jubilantes, numa tentativa de se reconciliar com o rei quando ele assumiu o trono.
Amigo e colaborador de aristocratas, a sua relação e os seus problemas eram com o público. Empresário de ópera, fez fortuna com obras em estilo italiano, das quais produziria um total de 42, entre as quais Rinaldo, Tamerlano, Xerxes e Deidamia. A mudança no gosto inglês fez com se virasse para a música religiosa. Uma doença misteriosa, de natureza talvez psicossomática, que o atingiu em 1737, também o impeliu nesse sentido. Não foi muito depois disso que compôs Messias, a mais famoso das suas oratórias, e a única cujo tema é retirado do Novo Testamento. Entre as outras contam-se Sansom, Solomon, Israel in Egypt, Athalia e Saul. Todas elas aliam o calor melódico a noções apuradas de caracterização psicológica, e uma solidez contrapontística tipicamente germânica. Melodias dessas obras seriam reutilizadas por compositores como Beethoven, Brahms e Schonberg.
Beethoven considerava Handel um mestre supremo pelo modo como conseguia os efeitos mais profundos através dos meios mais simples. Não será exagero afirmar que ele dominou a vida musical britânica durante décadas, prolongando tradições herdadas de Purcell, a quem aliás adorava. Energético e generoso, esteve associado a causas como a protecção dos orfãos crianças abandonadas, em benefício de quem organizava um concerto anual. Além da música vocal, praticou os outros géneros do seu tempo, incluindo a música para cravo e órgão. Falecido a 14 de Abril de 1759, teve um funeral ao qual assistiram milhares de pessoas. Foi sepultado na Abadia de Westminster.
Breve selecção musical
1. Já houve quem chamasse a "Ombra mai fu" (literalmente, nunca houve sombra) a mais bela melodia jamais composta. Nesta breve ária que abre a ópera Xerxes, o rei do mesmo nome elogia a sombra de uma árvore, «a mais doce e gentil». Várias das características que associamos a Handel, em especial a de uma longa linha melódica que amplia a emoção, encontram-se aqui presentes.
2. A história de Salomão surge nos textos de diversas religiões. A versão judaico-cristão tem sede no livro de Reis. Mesmo entre os oratório de Handel, Solomon é especialmente sumptuoso, e esta entrada da rainha de "Sheba" está à altura.
3."How Beautiful are the feet of Him". Como são belos os Seus pés. Doce e consoladora, esta ária da segunda parte do Messiah é ouvida pouco antes do famoso Hallelujah, o coro que ainda hoje, numa curiosa tradição musical que repete o que alegadamente se passou aquando da estreia, faz levantar o público nas salas de concerto em todo o mundo.
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