Grace Kelly - Já não se fazem ícones como ela

06.07.2010 - 18:57 Por Joana Amaral Cardoso, em Londres
Uma exposição no Victoria & Albert Museum de Londres serve de pretexto para analisar a anatomia do style icon loiro, elegante e paradoxalmente acessível e distante. De Hitchcock a Dior, foi vestida e vestiu uma geração de imitadoras. Hoje não tem sucessoras — só candidatas. Do restolhar destes vestidos, seis décadas nos contemplam.
Como se enfia o mundo num vestido? Assim: o vestido é bonitinho, elegante, simples e cintado. Tamanho 38, pertencente a Grace Kelly, feito por Oleg Cassini, seu ex-namorado costureiro que viria a vestir também Jacqueline Kennedy. Nesse vestido imaginário cingem-se ao corpo as décadas 1950 e 1960, a do new look pós-II Guerra e a do advento da música pop e da cultura juvenil, a de um ícone loiro e a de outro, moreno. Mas há mais vestidos. Outro, bem real, verde-esmeralda, feito pela Givenchy: eis Grace Kelly de verde e Jackie antes de ser O, juntas em 1961 na Casa Branca. Enchemos, finalmente, com mais planeta e uns tamanhitos acima, um derradeiro vestido: roxo, com laço, Yves Saint-Laurent sobre Grace Kelly princesa junto a Diana princesinha, em 1981. Europa e América, sonho e realidade. Passado e futuro.
A cena passou-se cerca de um ano antes da morte da predecessora de Diana nestas coisas das plebeias tornadas princesas, das loiras tornadas ícones de estilo. Um acidente de viação, como aquele que viria a reclamar a vida de Diana de Gales em 1997, punha fim a uma influência já em perda de Grace Kelly, então princesa Grace, mãe de três crianças acarinhadas pela imprensa rosa e ex-estrela de Hollywood. Em perda porque, apesar do postulado de Karl Lagerfeld — o kaiser criativo da Chanel que diz que se Grace Kelly fosse viva continuaria a arrasar, como nos lembra Paulo Morais-Alexandre, docente da Escola Superior de Teatro e Cinema —, Grace já não ditava todas as tendências. Na década de 1960 criticava as mini-saias (odiava mostrar os joelhos, que, dizia, ninguém tinha bonitos), nos anos 1970 retraía-se nos comentários às colecções parisienses e nos anos 1980 abraçou o exagero típico da década, ao mesmo tempo que mantinha algumas das suas peças fetiche (os lenços, chapéus e toucados) mas na suas mais feéricas versões.
É que Grace Kelly é um produto dos anos 1950. Através dela, e da roupa dela, podemos ver um mundo em mutação. Os seus 11 filmes foram feitos num tempo recorde de seis anos, com três Hitchcock e um John Ford pelo meio e uma catapulta para o estrelato mundial que em 1956 culminava com o casamento com Rainier do Mónaco. A sua educação numa família abastada e católica de Filadélfia fê-la à medida para o teatro (fora a voz, tida como muito estridente), depois para a televisão e cinema, finalmente para a realeza — ela que, quando menina, tinha dito que o seu sonho era ser princesa; mais tarde, queria ser actriz, séria, o que só se podia ser no teatro.
De permeio houve o trabalho como modelo, qual Carla Bruni a treinar para o cargo de primeira-dama, que depois foi artista da canção e finalmente sra. Sarkozy. Mas dizíamos que Kelly estava feita à medida para esse mundo 50’s, das saias rodadas com muito tecido, a luz do pós-II Guerra, a era new look de Christian Dior, para a qual ela levou as suas inconfundíveis luvas brancas e postura elegante.


