God Help The Girl

God Help The Girl

06.08.2009 - 09:13 Por João Bonifácio, PÚBLICO, Rough Trade; distri. Popstock

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Qualquer coisa correu mal no universo dos Belle and Sebastian (B&S) no último par de álbuns. O charme das canções dos primeiros discos daquela rapaziada residia, em parte, no ar coloquial das vestes que envergavam: era como se aquelas canções vestissem as primeiras peças de roupa que estivessem à mão e o desmazelo da roupa, o rasgão nas calças, a camisa por passar a ferro, o pullover geek oferecido pela mamã, tudo lhes ficasse bem.

O melhor dos B & S era a ingenuidade que corria no sangue das canções, a melodia desafinada, o baixo que tentava soar a disco-sound e não conseguia e mesmo assim era delicioso. Nesse último par de discos a ingenuidade ficou de fora, as canções faziam um esforço tremendo por dar nas vistas, por mostrar a sua pecinha de roupa, e a graça perdeu-se para uma auto-consciência sem pingo de genuinidade. Foi preciso ter um ângulo de abordagem original para que tudo voltasse a estar bem no reino dos nossos choninhas preferidos. Stuart Murdoch, o líder destes nerds literatos, sonhou fazer um filme sobre uma rapariga cuja vida descambava à medida que se apaixona por música popular. Fazer um filme demora tempo, fazer a banda-sonora do filme demora menos: e é isto que é "God Help The Girl", a banda-sonora de um filme musical que nunca foi filmado, a resposta indie a "Chicago". O nome do filme tornou-se o nome do projecto, mas não há que enganar, isto são os B & S: as canções pertencem todas a Stuart Murdoch, excepto uma cujos créditos são divididos a meio entre Murdoch e Stevie Jackson (também dos B & S). E os membros da banda God Help The Girl são os membros dos B & S, acompanhados por orquestra de cordas e de metais. Mas há duas diferenças de monta em relação a um disco dos B & S. A primeira são as vozes. Em "God Hepl The Girl" brilha Catherine Ireton, que faz de Eve (a protagonista do filme), mais um par de garotas (que representam personagens do filme) e Neil Hannon (na melhor canção que canta em anos). A segunda diferença face aos discos dos B & S é a música que pilham e que aqui deve muito ao vaudeville, ao music-hall, às canções da Tin Pan Alley (empresa de canções norte-americana dos anos 20). Passam-se facturas às Ronettes e a Burt Bacharach, e há cordas sumptuosas e o ocasional par de metais a bradar, mas sendo Murdoch o compositor o ênfase está nas mais melodias que no ritmo, pelo que não há um tema que esteja abaixo de belo. Há mais de uma mão cheia de canções extraordinárias: a homenagem às girl-bands da faixa-título; "If you could speak"; a óptima "Musician, please take heed" (cujo gigantesco refrão soa tremendamente a ABBA); a grandiosidade sinfónica de "Perfection as a hipster"; "Come monday night", com uma tremenda linha de baixo e um grande arranjo de cordas. O disco é tão mas tão bom que até duas faixas verdadeiramente fraquinhas dos B & S, "Act of the apostle", agora em versão vaudeville, e "Funny little frog" (que se torna música lounge sumptuosa), surgem aqui em versões superiores e tornam-se nas grandes canções que deviam ter sido sempre. Não nos chateia nada que os discos dos B & S se tornem aborrecidos se Stuart Murdoch continuar com projectos paralelos deste calibre.

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