“Tudo neste filme é um risco! Um filme pessoal, de autor, rodado a preto e branco, falado parcialmente em espanhol e, pior, em espanhol argentino... Não conseguiria arranjar pior maneira de ganhar dinheiro!” Mas quem diz que Francis Ford Coppola quer ganhar dinheiro com o seu novo filme, "Tetro"?
À pequena multidão de jornalistas e fotógrafos que o recebe na “sala de encontros” do Centro de Congressos do Estoril, ao princípio da tarde de hoje, o cineasta americano diz que “nenhum dos meus filmes preferidos ganhou dinheiro à altura da estreia”, e evoca alguns dos seus filmes mais conhecidos e aclamados como "O Vigilante" (1974) e "Rumble Fish – Juventude Inquieta" (1983). E mesmo "Apocalypse Now" (1979) foi perseguido durante anos pela aura de filme maldito.
A verdade é que Francis Ford Coppola, 70 anos completados em Abril, em Portugal para apresentar no Estoril Film Festival "Tetro", história de uma família separada por um segredo dilacerante, não é exactamente o mesmo que fez os três Padrinhos (1972/74/90) ou "Drácula de Bram Stoker" (1992). Este Coppola virou costas a uma Hollywood enterrada numa modorra criativa “que o 3D não vai salvar”, esteve dez anos sem rodar e apenas voltou ao cinema (em 2007, com "Uma Segunda Juventude") nos seus próprios termos. E diz a quem o quiser ouvir que se sente de novo “cheio de ideias”, como um estudante de cinema que experimenta e explora, “sempre a aprender”. Em absoluta liberdade criativa, permitida pela sua distância física de Los Angeles (mora, como sempre, em São Francisco) e pelo sucesso que obteve entretanto - e “por acaso”, como diz - como produtor de vinhos (a sua Coppola Winery engarrafa anualmente para cima de um milhão de litros).
Mas as pessoas têm como referência o “outro” Coppola, que filmou em Hollywood porque “precisava de alimentar a família” e assim se desviou do caminho dos tais “filmes pessoais” que sempre quis fazer (e que agora, finalmente pode fazer). No Estoril, uma das duas dezenas de fotógrafos que aguardam a chegada do realizador, tira da mochila a caixa de DVD com a versão restaurada de "O Padrinho" para autografar. E "Tetro" é um dos momentos fortes da programação do festival dirigido por Paulo Branco: a sessão oficial marcada para a hoje à noite, seguida de um momento de perguntas e respostas com o público, esgotou num ápice, forçando à marcação de uma segunda exibição à meia-noite que esgotou tão depressa quanto a primeira – muito embora o filme chegue já às salas portuguesas no próximo dia 19.
Somos procurados pelas pessoas erradas pelas razões erradas”
É Coppola, o cineasta no activo, ou Coppola, o cineasta lendário, que esgota as sessões? Ele confessa, já no final dos vinte minutos que a sua agenda concedeu ao PÚBLICO, que o apelido se tornou num “amigo da onça”, porque “entramos na sala não como a pessoa que somos mas como um fenómeno, e somos procurados pelas pessoas erradas pelas razões erradas”.
Mas é nítido que quem está na conferência de imprensa – tal como quem esteve, de manhã, no Hotel Albatroz, em Cascais, para uma ronda de entrevistas controlada metronomicamente – sabe que aquilo que o cineasta está agora a fazer não está assim tão longe da sua obra anterior. "Tetro", onde um jovem (o estreante Alden Ehrenreich) reencontra o irmão mais velho (o actor e realizador Vincent Gallo, “de quem me diziam horrores mas que foi um encanto, um tipo inteligente com boas ideias”) que cortou relações com a família, é o primeiro guião original escrito sozinho pelo cineasta em quase trinta anos, invocando dramaturgos como Tennessee Williams ou Clifford Odets, importantes na sua aprendizagem artística. E Coppola admite aos jornalistas reunidos que é um filme muito pessoal – “só nos temos a nós próprios e às nossas memórias, por isso é inevitável que todos os filmes que escrevi sejam pessoais. Aqui, há de facto uma família muito semelhante à minha, e é certamente o mais próximo que já cheguei de falar sobre a minha família. Mas não é um filme autobiográfico.”


